

A estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês) do núcleo subtalâmico é conhecida, sobretudo, por reduzir tremor, rigidez e lentidão dos movimentos no Parkinson. Mas um novo estudo publicado na revista Movement Disorders mostra que seus efeitos podem ir além do controle motor: usando eletroencefalografia (EEG), pesquisadores testaram se a DBS também influencia uma habilidade chamada predição temporal, importante para reações rápidas e coordenadas no dia a dia, como atravessar uma rua com carros em movimento ou reagir a um objeto que se aproxima.
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Na semana passada, comentamos aqui um estudo publicado na revista Brain sobre um padrão de conectividade em banda beta alta na DBS. O estudo de hoje é diferente: foi conduzido por outro grupo de pesquisa e não investiga quem responde melhor à DBS, e sim um efeito específico e pouco explorado da estimulação — o impacto sobre a predição temporal, medido por EEG enquanto o dispositivo estava ligado ou desligado nos mesmos pacientes.
Achamos importante trazer essa pesquisa porque ela ajuda a entender, com dados objetivos de atividade cerebral, por que a DBS pode beneficiar pacientes com Parkinson também fora do domínio motor — algo que costuma receber menos atenção do que tremor e rigidez.
Segundo a Mayo Clinic, o Parkinson está associado à perda progressiva de neurônios que produzem dopamina.
Este neurotransmissor, entre outras funções, ajuda a regular o mecanismo que permite estimar a duração de intervalos de tempo e prever quando um evento vai ocorrer. Por isso, muitos pacientes apresentam dificuldades sutis de percepção temporal, que podem persistir mesmo com o uso de medicação dopaminérgica.
A DBS do núcleo subtalâmico já é um tratamento estabelecido para os sintomas motores do Parkinson, atuando principalmente ao reduzir um padrão de atividade elétrica excessiva conhecido como sincronização de ondas beta nos circuitos que conectam o córtex cerebral aos núcleos da base. Estudos anteriores já haviam sugerido que a DBS também pode influenciar funções cognitivas, como memória de trabalho e flexibilidade mental, mas seu efeito específico sobre a predição temporal ainda era pouco compreendido.
O estudo envolveu 13 pacientes com Parkinson avançado e 20 voluntários saudáveis, pareados por idade, sem diagnóstico de Parkinson.
Cada paciente participou de duas sessões de teste em dias diferentes: uma com o dispositivo de DBS ligado e outra com o dispositivo desligado ao menos por uma hora, mantendo a medicação habitual em ambas as sessões. Durante essas sessões, tanto pacientes quanto voluntários saudáveis realizaram uma tarefa de predição temporal: observaram, na tela, um objeto que se movia e desaparecia atrás de um obstáculo visual, reaparecendo em um momento que podia ser antes, exatamente no horário esperado, ou depois do previsto. A tarefa consistia em julgar se o objeto havia reaparecido "cedo demais" ou "tarde demais", enquanto a atividade elétrica cerebral era registrada por EEG.
É importante destacar que a amostra é pequena — 13 pacientes — e que a tarefa avalia uma habilidade cognitiva específica em ambiente de laboratório controlado, não uma medida direta de qualidade de vida ou de funcionamento no dia a dia.
Com o DBS ligado, o desempenho dos pacientes na tarefa de predição temporal foi comparável ao dos voluntários saudáveis. Já com o DBS desligado, o desempenho foi significativamente pior.

Os registros de EEG ajudam a explicar essa diferença. Um padrão de atividade cerebral chamado supressão de ondas beta — reconhecido como parte do processamento normal de eventos e movimentos — apareceu de forma mais fraca nos pacientes com o DBS desligado do que nos voluntários saudáveis. Com o DBS ligado, esse padrão se aproximou do observado nas pessoas sem Parkinson, sugerindo que a estimulação ajuda a restaurar essa dinâmica cerebral específica.
Por outro lado, um segundo padrão elétrico avaliado — a sincronia de ondas delta, associada ao alinhamento da atividade cerebral com o momento esperado de um evento — permaneceu reduzida em relação aos voluntários saudáveis tanto com o DBS ligado quanto desligado. Ou seja, a estimulação não normalizou completamente a atividade cerebral relacionada à predição temporal, apenas parte dela.
Esse estudo não indica uma nova aplicação prática da DBS, nem sugere que os pacientes devam esperar melhora perceptível na vida cotidiana relacionada especificamente à predição temporal. O que ele mostra é que os efeitos da DBS no cérebro são mais amplos do que os observados apenas no controle de tremor e rigidez, alcançando também processos cognitivos ligados à forma como o cérebro antecipa eventos no tempo.
Isso é relevante porque reforça a mensagem de que o Parkinson não afeta apenas o movimento. Aspectos cognitivos, perceptivos e de atenção também podem ser influenciados, ainda que parcialmente, pelos tratamentos já utilizados na prática clínica, como a DBS.
Os autores apontam limitações que precisam ser abordadas em pesquisas futuras:
O estudo comparou pacientes com Parkinson, com o DBS ligado e desligado, a voluntários saudáveis, em uma tarefa de predição temporal monitorada por EEG. Com a estimulação ligada, o desempenho dos pacientes ficou semelhante ao dos voluntários saudáveis, acompanhado da restauração parcial de um padrão de atividade cerebral (supressão de ondas beta).
Os resultados, obtidos em uma amostra pequena e em condições de laboratório, não mudam a prática clínica hoje, mas ajudam a entender melhor por que a DBS pode beneficiar pacientes com Parkinson também fora do domínio motor — e apontam caminhos para pesquisas futuras sobre os efeitos cognitivos da estimulação cerebral profunda.
Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.
Dr Diego de Castro é Neurologista e Neurofisiologista pela USP especialista em Doença de Parkinson e Distúrbios do Movimento. Dr Diego de Castro também é membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica (SBNC).
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