

Resposta Rápida: Depende da fase da doença. Muitas pessoas com doença de Parkinson, principalmente no início, continuam dirigindo com segurança, mas a doença pode deixar os reflexos mais lentos, prejudicar a atenção e causar sonolência. No Brasil, quem define a aptidão para dirigir é o médico perito de trânsito, caso a caso, e o neurologista ajuda a identificar quando dirigir deixou de ser seguro.
Parkinson pode dirigir? Para quem depende do carro para trabalhar, levar os filhos ou ir às consultas, essa pergunta pesa quase tanto quanto o diagnóstico. Abrir mão do volante cedo demais custa independência. Insistir até tarde demais coloca você e outras pessoas em risco.
Neste artigo, Dr. Diego de Castro, neurologista e neurofisiologista pela USP, explica o que já sabemos sobre direção na doença de Parkinson, como a sonolência e os medicamentos entram nessa conta e o que a legislação brasileira prevê para quem precisa renovar a CNH.
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Pode, em muitos casos, mas não de forma automática nem para sempre: a resposta depende de como estão seus movimentos, sua atenção, sua visão e seu sono naquele momento. Dirigir exige fazer várias coisas ao mesmo tempo: enxergar, decidir, reagir e controlar o carro. A doença de Parkinson pode interferir em cada uma dessas etapas, em graus muito diferentes de uma pessoa para outra.
A doença compromete tanto o movimento quanto funções que não aparecem à primeira vista, como atenção, velocidade de raciocínio e vigília. Uma revisão sistemática sobre direção na doença de Parkinson mostrou que pessoas com a doença cometeram mais erros ao dirigir do que pessoas sem ela, e que o pior desempenho se relacionou com a gravidade dos sintomas motores, visuais e cognitivos.
Na prática, os problemas costumam se dividir em três grupos:
Nos testes práticos, os erros mais frequentes aparecem em tarefas como observar o ponto cego, dar ré, estacionar, respeitar semáforos e usar os espelhos, além da demora para tomar decisões.
A memória também é um fator relevante. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde estima que de 25% a 40% das pessoas com a doença desenvolvem demência ao longo da evolução. Por isso, atenção e raciocínio fazem parte da avaliação, e não só o tremor.
Aumenta a chance de falhar em avaliações práticas de direção, mas a ciência ainda não mostra com a mesma clareza um aumento de acidentes reais. Uma meta-análise publicada na revista Neurology reuniu 50 estudos, com 1.955 pessoas com Parkinson e 3.455 sem a doença. As chances de reprovar em teste de direção na rua foram cerca de seis vezes maiores (entre aproximadamente quatro e dez vezes, considerando a margem de incerteza). As chances de colidir no simulador foram cerca de duas vezes e meia maiores.
Os autores concluíram que existe evidência convincente de prejuízo ao dirigir. Porém, os dados de acidentes informados pelos próprios motoristas não bastam, sozinhos, para justificar uma regra de renovação específica para o Parkinson.
O número de pessoas que não passam varia conforme o estudo e o estágio da doença. Em uma pesquisa com 80 pessoas, por exemplo, cerca de uma em cada quatro não foi considerada apta sem restrições na avaliação prática.
Isso significa que ter Parkinson não transforma ninguém, por si só, em um motorista perigoso. Os autores alertam que classificar todas as pessoas com a doença como inseguras não é recomendável. Perder o direito de dirigir se associa a depressão, isolamento e maior dependência dos familiares.
Pode dar. A sonolência durante o dia é comum no Parkinson e pode vir da própria doença, de distúrbios do sono ou do tratamento. Na revisão citada acima, adormecer ao volante foi um dos fatores que mais previram acidentes entre motoristas com a doença.
O sono súbito é mais associado aos agonistas dopaminérgicos, como pramipexol e ropinirol, e menos à levodopa usada isoladamente. Ainda assim, a levodopa também pode causar sonolência em algumas pessoas. Se quiser entender melhor as opções, veja como é o tratamento da doença de Parkinson.
Se você sente muito sono durante o dia, cochila em situações em que normalmente ficaria acordado ou já teve um “apagão” sem aviso, não dirija até conversar com o seu neurologista. Também não troque nem suspenda o remédio por conta própria. A investigação de outros problemas de sono, como a apneia, e qualquer ajuste do tratamento cabem ao médico.

Os sinais mais importantes são mudanças na forma de dirigir que você, a família ou outros motoristas percebem. Vale conversar com o neurologista quando aparecerem situações como:
A autoavaliação costuma falhar nos dois sentidos. Algumas pessoas em fase inicial deixam de dirigir mais cedo do que o necessário, enquanto outras, em fase mais avançada, se consideram aptas sem estar. Por isso, a opinião de quem anda de carro com você tem peso.

Ajustar quando, onde e como você dirige costuma ser o primeiro passo, e muitas pessoas já fazem isso por conta própria. Em uma pesquisa com mais de 5.000 pessoas com Parkinson, cerca de um terço reduziu a distância e a duração das viagens, e muitas evitavam dirigir à noite, em horário de pico, por longas distâncias ou sozinhas.
Como os sintomas oscilam de um dia para o outro, estas medidas ajudam:
A regra geral está na Resolução Contran nº 927/2022, que inclui uma avaliação neurológica no exame médico e deixa a decisão final com o perito examinador de trânsito, caso a caso. O que pesa é se existe contraindicação para conduzir o veículo, e não apenas o nome do diagnóstico.
O exame pode ter quatro resultados, definidos no artigo 8º da resolução:
Como o Parkinson é uma doença progressiva, o resultado de hoje não vale para sempre. A cada renovação, a avaliação acompanha a evolução dos seus sintomas.
Sim. As informações prestadas no exame são de responsabilidade de quem o faz, e o questionário é parte da avaliação médica. Informe também os medicamentos que você usa, porque eles ajudam o perito a entender possíveis efeitos sobre a direção, como a sonolência. Omitir a doença ou o tratamento pode trazer consequências legais, além de colocar você e outras pessoas em risco.
Levar um relatório atualizado do neurologista, com o estágio da doença, o tratamento em uso e a avaliação de sono e de memória, ajuda o perito a decidir com mais segurança.
Sim, em um ponto: para as categorias C, D e E, a resolução exige a avaliação de distúrbios do sono na renovação, na adição e na mudança de categoria. Como a sonolência é um dos sintomas que mais pesam no Parkinson, quem trabalha como motorista profissional deve conversar com o neurologista antes do exame.
Em geral, sim, desde que não haja sonolência, lentidão importante, falhas de atenção ou outros sinais de risco, e que o neurologista acompanhe a evolução. Os estudos mostram que pessoas em fase inicial têm menos prejuízo do que as em fase avançada, mas muitas não conseguem avaliar sozinhas se ainda estão aptas. Uma recomendação de consenso, citada na revisão sistemática, sugere avaliação completa de direção a cada ano para quem tem comprometimento motor leve.
Não. A CNH não é cancelada pelo diagnóstico em si: o que define o resultado é o exame de aptidão física e mental, feito caso a caso. Em fases avançadas, com sintomas que contraindicam a direção, a inaptidão pode ser definitiva. Em fases iniciais, o resultado pode ser apto ou apto com restrições, e cabe pedir Junta Médica se você discordar.
Podem, principalmente os agonistas dopaminérgicos, mas a levodopa também causa sonolência em algumas pessoas. Adormecer ao volante foi apontado como um dos principais fatores ligados a acidentes em motoristas com Parkinson. Por isso, qualquer episódio de sono súbito deve ser comunicado ao neurologista antes de você voltar a dirigir, sem ajustar nem interromper a medicação por conta própria.
Ela é feita em etapas: primeiro a avaliação clínica do neurologista, e depois, se houver dúvida, um teste de direção. A avaliação clínica analisa movimento, memória, atenção e visão, com escalas de gravidade e testes cognitivos.
O teste prático é uma das formas mais objetivas de avaliar o desempenho real, mas a decisão final combina vários elementos: sintomas, cognição, visão, sono, medicamentos e observação clínica. Costuma durar de 45 a 60 minutos, em percurso real, com um profissional de reabilitação de condutores no banco do passageiro. Simuladores de direção são uma alternativa em alguns centros.
Comece pelo que você observou na prática, como demora para frear ou cochilos, e não pelo diagnóstico ou pela idade, e proponha uma avaliação com o neurologista. Quando a opinião da família e a da pessoa divergem, o encaminhamento direto para um teste prático costuma ajudar a decidir com mais objetividade. Como perder a direção se associa a depressão, isolamento e dependência, combine alternativas de transporte antes de pedir que ele pare.
Parkinson pode dirigir em muitos casos, principalmente no início, mas a doença pode atrasar os reflexos, reduzir a atenção e causar sonolência, e os estudos mostram mais chance de falhar em testes de direção. Sonolência e medicamentos merecem atenção especial, e sinais como demora para reagir, falhas em manobras ou cochilos pedem reavaliação. No Brasil, o exame de aptidão física e mental decide caso a caso, com resultado apto, apto com restrições, inapto temporário ou inapto, e com direito à Junta Médica em 30 dias.
Reavaliar a direção junto com o neurologista, de preferência uma vez por ano e sempre que os sintomas ou o tratamento mudarem, é o que permite manter sua autonomia pelo maior tempo possível, com segurança para você e para quem está na rua. Uma conversa franca sobre sono, memória e reflexos hoje ajuda a evitar decisões forçadas mais adiante.
Dr Diego de Castro é Neurologista e Neurofisiologista pela USP especialista em Doença de Parkinson e Distúrbios do Movimento. Dr Diego de Castro também é membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica (SBNC).
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