

A neuropatia diabética é uma das complicações mais comuns e debilitantes do diabetes tipo 2, e os tratamentos disponíveis hoje atuam principalmente sobre os sintomas — como a dor —, sem reverter a perda progressiva de fibras nervosas que caracteriza a doença. Um estudo de fase 2a, publicado na eBioMedicine, testou a aplicação tópica da pirenzepina, um antagonista muscarínico, em pacientes com diabetes tipo 2 e neuropatia periférica, e encontrou um aumento na densidade de fibras nervosas na pele da região tratada.
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A maior parte das opções disponíveis para neuropatia diabética hoje mira o controle da dor e do desconforto, não a regeneração das fibras nervosas afetadas pela doença. A pirenzepina vem sendo estudada há anos em modelos animais como uma possível exceção a essa lógica, e este é um dos primeiros estudos a testar esse mecanismo diretamente em pessoas com diabetes tipo 2. Ainda que seja um resultado inicial, ele toca em uma lacuna real do cuidado da neuropatia diabética: a falta de estratégias voltadas à proteção e reparo dos nervos, e não apenas ao alívio dos sintomas.
A pirenzepina não foi criada para tratar nervos: é uma molécula antiga, usada há décadas por via oral no tratamento de úlceras gástricas e duodenais, ao bloquear um subtipo específico de receptor muscarínico — o receptor M1 —, envolvido na produção de ácido no estômago.
Nos últimos anos, pesquisadores identificaram que esse mesmo receptor M1 também está presente nos neurônios sensoriais periféricos, os que formam os nervos das pernas e dos pés — justamente os mais afetados na neuropatia diabética. Em condições normais, a ativação desse receptor parece funcionar como um freio ao crescimento dos nervos: ela desorganiza o citoesqueleto da célula e prejudica o transporte de mitocôndrias (estruturas que fornecem energia) até as extremidades mais distantes do neurônio, dificultando a manutenção e a regeneração dos prolongamentos nervosos.
Em modelos animais, ao bloquear esse receptor M1, os neurônios voltaram a crescer, e ratos diabéticos tratados foram protegidos de sinais estruturais e funcionais de neuropatia. Como a pirenzepina já era uma molécula conhecida, com décadas de uso clínico e perfil de segurança estabelecido (ainda que em outra via de administração e outra finalidade), ela se tornou uma candidata natural para testar essa hipótese diretamente em pessoas, em vez de ser necessário desenvolver uma substância nova do zero.
A escolha pela via tópica, em vez da oral (já usada para úlceras) ou de uma injeção, também tem lógica própria. As fibras nervosas avaliadas no estudo ficam na camada mais superficial da pele, a epiderme — bem diferente de alvos mais profundos, como os visados por cremes cosméticos.
Em estudos com animais, os pesquisadores confirmaram que a pirenzepina aplicada na pele realmente é absorvida em quantidade suficiente para atingir concentrações biologicamente ativas nos tecidos tratados. Já a via oral, quando usada de forma prolongada, tende a causar efeitos colaterais sistêmicos comuns a medicamentos desse tipo, como boca seca e constipação — por isso a aposta em concentrar o efeito localmente, na pele das pernas e dos pés, onde os nervos estão sendo danificados.
O estudo foi um ensaio clínico de fase 2a, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em cinco centros universitários no Canadá, com 58 pessoas com diabetes tipo 2 e neuropatia periférica confirmada. Os participantes foram distribuídos em quatro grupos — duas doses da solução tópica de pirenzepina e dois grupos placebo —, aplicando o produto diariamente na pele das pernas e dos pés por 24 semanas.
É importante destacar que o objetivo principal deste estudo foi avaliar segurança e tolerabilidade das duas doses testadas, e não comprovar benefício clínico. Como desfechos de eficácia, os pesquisadores mediram a variação na densidade de fibras nervosas da pele (por biópsia) e o impacto em um questionário de qualidade de vida relacionado à neuropatia.
Os participantes que usaram a solução de pirenzepina apresentaram um aumento estatisticamente significativo na densidade de fibras nervosas da pele ao final das 24 semanas, enquanto o grupo placebo não mostrou essa melhora. Esse é o achado mais consistente do estudo e sugere que o mecanismo testado em animais também pode operar em humanos.
Já os indícios de melhora percebida pelos pacientes — como qualidade de vida relacionada à neuropatia — não se confirmaram de forma consistente quando os dados foram analisados por diferentes métodos estatísticos, o que exige cautela: por ora, o benefício mais sólido é biológico (mais fibras nervosas), não necessariamente sintomático.
Em termos de segurança, o perfil geral do medicamento foi semelhante entre os grupos, mas reações na pele no local de aplicação foram mais frequentes entre quem usou a pirenzepina do que entre quem usou placebo — um ponto a considerar sobre a tolerabilidade do tratamento.
O estudo também foi financiado, entre outras fontes, pela empresa responsável pelo desenvolvimento do medicamento, e uma das autoras integra o quadro dessa empresa — uma informação relevante para contextualizar os resultados.

Para quem convive com neuropatia diabética, o estudo não representa uma nova opção de tratamento pronta para uso — a pirenzepina tópica ainda é uma droga experimental, sem aprovação regulatória para essa finalidade. O que ele sugere é que a proteção e a regeneração de fibras nervosas podem ser um alvo terapêutico viável, algo diferente do foco atual, voltado ao alívio dos sintomas.
Por se tratar de uma fase inicial, com um número pequeno de participantes e um objetivo principal de segurança (não de eficácia), os resultados devem ser vistos como um sinal promissor, não como prova de benefício clínico. Pacientes com neuropatia diabética devem continuar seguindo o acompanhamento e as orientações da equipe médica, sem expectativa de acesso a esse tratamento no curto prazo.
Os próprios autores do estudo apontam a necessidade de ensaios maiores, de fase 2b e fase 3, para confirmar esses achados iniciais, avaliar de forma mais robusta o impacto sobre sintomas e qualidade de vida, e esclarecer melhor o perfil de segurança em uso prolongado.
Um estudo de fase 2a mostrou que a aplicação tópica de pirenzepina por 24 semanas aumentou a densidade de fibras nervosas na pele de pacientes com neuropatia diabética, um resultado biológico preliminar e promissor. No entanto, o benefício sobre sintomas e qualidade de vida ainda não foi confirmado de forma consistente, e reações cutâneas no local de aplicação foram mais comuns no grupo tratado.
Trata-se de um resultado inicial, que precisa ser testado em estudos maiores antes de qualquer conclusão sobre uso clínico.
Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.
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Dr Diego de Castro é Neurologista e Neurofisiologista pela USP e se dedica integralmente ao universo do diagnóstico e assistência. À frente do Serviço de Especialidades Neurológicas, oferece um serviço de qualidade em diagnóstico de neuropatias e outras condições neurológicas.
Médico especialista em Eletroneuromiografia e Doenças Neuromusculares e à frente do Serviço de Eletroneuromiografia SP - Dr Diego de Castro, realiza o exame de eletroneuromiografia em São Paulo e Vitória - ES com qualidade reconhecida pela Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica.
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