

Você olha no espelho, percebe que um lado do seu rosto não responde e o primeiro pensamento é sempre o mesmo: será que estou tendo um AVC? Essa dúvida diante de uma Paralisia Facial Súbita é absolutamente compreensível.
Neste artigo, Dr. Diego de Castro, Neurologista e Neurofisiologista pela USP, explica os sinais objetivos que ajudam a diferenciar as duas situações e quando é necessário buscar atendimento de emergência.
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A University of California San Francisco explica que o rosto é uma das partes do corpo com maior densidade de terminações nervosas e também uma das que mais expõe qualquer alteração. Quando um lado da face perde a força de repente, o cérebro interpreta isso como uma ameaça grave. E, em parte, essa reação faz sentido: a paralisia facial súbita pode, sim, ser um sinal de AVC.
Mas na maioria dos casos, especialmente quando o comprometimento é isolado ao rosto, a causa é outra, bem menos perigosa e com ótimo prognóstico: a Paralisia de Bell.
A diferença entre as duas situações não está apenas na gravidade, mas na origem do problema:
É essa diferença de localização que explica por que os sinais de cada uma são tão distintos, e é aí que está a resposta para a pergunta que mais assusta quem passa por isso.
O nervo facial, o sétimo par de nervos cranianos, é responsável por comandar todos os músculos de um lado do rosto: os que erguem a sobrancelha, os que fecham o olho, os que puxam o canto da boca. Ele percorre um canal ósseo estreito dentro do crânio antes de se ramificar pela face, e é nesse trajeto apertado que costuma surgir o problema.
Um inchaço no nervo, geralmente ligado a uma reativação viral, faz com que ele fique comprimido dentro desse canal, prejudicando a condução do impulso elétrico até os músculos. O resultado é a perda de força que caracteriza a Paralisia de Bell: rápida, geralmente unilateral e sem lesão nenhuma dentro do cérebro.
Artigo publicado no periódico Pattern Recognition aponta que existe um sinal clínico que, sozinho, já ajuda bastante na diferenciação: o comportamento da testa.
Na Paralisia de Bell, o nervo comprometido controla toda a metade do rosto, incluindo a testa. Por isso, a pessoa não consegue franzir a testa nem levantar a sobrancelha daquele lado. Já no AVC, a testa costuma continuar se mexendo normalmente mesmo com a lesão, ainda que a boca e a bochecha fiquem comprometidas. Pedir para a pessoa levantar as duas sobrancelhas ao mesmo tempo, olhando no espelho, é um teste simples que já entrega uma pista valiosa.

Esse teste é um bom primeiro sinal, mas sozinho não fecha o diagnóstico. O AVC quase nunca afeta só o rosto. Ele costuma vir acompanhado de outros sinais neurológicos que a Paralisia de Bell não causa:
Se qualquer um desses sinais aparecer junto com a queda do rosto, a suspeita de AVC deve prevalecer, e a urgência médica é imediata. Já quando a alteração fica restrita à face, sem nenhum desses sinais associados, e inclui a testa do lado afetado, a Paralisia de Bell se torna a explicação mais provável.
Diante de qualquer paralisia facial súbita, a orientação prática é clara: procure atendimento de emergência imediatamente. Essa recomendação vale mesmo quando você suspeita fortemente de Paralisia de Bell.
O diagnóstico diferencial com AVC precisa ser feito por um profissional, com exame neurológico completo. Além disso, se for AVC, cada minuto sem tratamento representa perda de tecido cerebral.
Vale lembrar da lógica usada pelas campanhas de conscientização sobre AVC. Peça para a pessoa:
Qualquer uma dessas alterações já justifica chamar o SAMU (192) sem demora.
Segundo a American Academy of Family Physicians, uma vez que o AVC e outras causas mais graves são descartados pelo exame clínico, o diagnóstico da Paralisia de Bell costuma ser feito sem necessidade de exames de imagem ou de sangue, já que o quadro clínico típico é suficiente para o neurologista fechar a hipótese.
Exames complementares entram em cena principalmente quando a paralisia é bilateral, recorrente do mesmo lado, ou quando o quadro não segue o padrão esperado de evolução.
O tratamento de primeira linha são os corticoides orais, que reduzem a inflamação do nervo e aumentam as chances de recuperação completa. Quanto antes começam, geralmente dentro dos primeiros três dias de sintomas, melhor costuma ser a resposta.
Em muitos casos, o neurologista associa um antiviral ao corticoide, já que a reativação de um vírus latente é apontada como um dos gatilhos mais prováveis da inflamação do nervo, e essa combinação ajuda a reduzir sequelas como a sincinesia, quando os movimentos do rosto ficam desorganizados durante a recuperação, por exemplo, o olho fecha sozinho quando a pessoa sorri.
Alguns cuidados no dia a dia também fazem diferença enquanto o nervo se recupera:
O prognóstico da Paralisia de Bell é, na grande maioria dos casos, muito bom. Entre 66% e 85% dos pacientes recuperam totalmente o movimento do rosto dentro de três semanas, e esse número sobe ainda mais ao longo de dois meses. Em crianças e gestantes, a taxa de recuperação completa chega a 90%.
A paralisia facial súbita é um sintoma que merece atenção imediata, mas nem sempre significa AVC. A Paralisia de Bell, causada por uma inflamação do nervo facial, é a explicação mais comum quando o comprometimento fica restrito ao rosto, inclui a testa e não vem acompanhado de fraqueza em outras partes do corpo, alteração de fala ou de equilíbrio. Ainda assim, essa diferenciação precisa ser feita em um hospital, e não em casa.
Diante de qualquer alteração súbita no movimento do rosto, buscar atendimento de emergência é o caminho mais seguro para descartar as causas mais graves e, ao mesmo tempo, iniciar o quanto antes o tratamento que vai proteger a recuperação completa do nervo facial e a sua qualidade de vida.
Dr Diego de Castro se dedica integralmente ao universo do diagnóstico e assistência. À frente do Serviço de Especialidades Neurológicas, acredita que é possível oferecer um serviço de qualidade em diagnóstico e tratamento das doenças neurológicas.
Também se dedica à reabilitação de pacientes com AVC isquêmico, por meio de uma avaliação neurológica elaborada dos sintomas motores e cognitivos do paciente e da aplicação de toxina botulínica (Botox) em Vitória, abordagem que favorece a realização de fisioterapia, para reduzir os sintomas da espasticidade.
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