

Para quem convive com ataxia cerebelar — dificuldade com coordenação, equilíbrio e marcha — as opções de tratamento com respaldo científico sólido ainda são poucas. Um estudo clínico randomizado publicado na revista JAMA Neurology comparou, em formato mais robusto e de maior duração do que pesquisas anteriores, dois tipos de treino físico feito em casa: exercício aeróbico intenso e treino de equilíbrio.
O resultado: quem pedalou em bicicleta ergométrica teve melhora mais expressiva nos sintomas de ataxia, na fadiga e no condicionamento físico do que quem fez exercícios de equilíbrio.
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As diretrizes clínicas atuais recomendam treino de equilíbrio para pessoas com ataxia cerebelar, mas até pouco tempo havia poucas evidências robustas sobre o papel do exercício aeróbico de alta intensidade nessa população. Esse novo estudo é o mais longo e mais bem controlado.
Além disso, trata-se de uma intervenção feita em casa, sem necessidade de equipamentos sofisticados ou deslocamento frequente até uma clínica — um fator relevante para uma doença progressiva que já impõe, por si só, dificuldades de mobilidade e acesso a cuidado especializado.
A ataxia cerebelar não é uma doença única, mas um grupo de condições que têm em comum o comprometimento do cerebelo, estrutura cerebral responsável por coordenar os movimentos. Ela pode ter origem genética, como as ataxias espinocerebelares hereditárias, estar associada a doenças neurodegenerativas, como a atrofia de múltiplos sistemas, ou não ter causa identificada (ataxia esporádica). Em geral, o quadro é progressivo e afeta marcha, equilíbrio, fala e coordenação dos membros.
Historicamente, o treino de equilíbrio é a abordagem de reabilitação mais estudada e recomendada para essa população. Já o exercício aeróbico de alta intensidade era uma área pouco explorada, apesar de sinais promissores em estudos anteriores.
O estudo foi um ensaio clínico randomizado com avaliador cego, conduzido em um único centro de referência em ataxia em uma grande cidade dos Estados Unidos, entre janeiro de 2021 e setembro de 2024. Foram efetivamente randomizados 62 adultos com escore médio inicial de 12,1 pontos na escala SARA (Scale for the Assessment and Rating of Ataxia), que varia de 0 a 40, com valores mais altos indicando maior gravidade da ataxia.
Os participantes foram divididos em dois grupos:
O estudo durou 12 meses no total, mas o suporte estruturado por telefone (ligações quinzenais) foi oferecido apenas nos primeiros 6 meses — um detalhe importante para interpretar os resultados de longo prazo, como veremos adiante. O desfecho principal foi a variação no escore SARA. Desfechos secundários incluíram fadiga, condicionamento cardiorrespiratório (medido pelo VO2max), equilíbrio, velocidade de marcha, qualidade de vida e eventos adversos.
O grupo que fez treino aeróbico apresentou melhora significativamente maior do que o grupo de equilíbrio em três medidas centrais:
O dado mais interessante talvez esteja na avaliação de um ano depois: entre os participantes do grupo aeróbico que continuaram treinando regularmente por conta própria — já sem o suporte quinzenal por telefone, encerrado aos 6 meses —, o benefício no escore SARA se manteve (melhora média de 3,81 pontos em relação ao início do estudo). Já entre os que reduziram ou pararam o treino, a melhora praticamente desapareceu, com o escore retornando perto do valor inicial.
Esse contraste chama atenção para um ponto prático: os pesquisadores observaram que a adesão às metas de treino caiu de forma expressiva depois que o suporte estruturado terminou — cerca de 38% do grupo aeróbico e 24% do grupo de equilíbrio ainda cumpriam integralmente as metas propostas na segunda metade do estudo. Isso sugere que manter o acompanhamento e o incentivo ao longo do tempo pode ser tão importante quanto o tipo de exercício escolhido.

Os resultados reforçam uma mensagem prática: exercício físico regular, incluindo treino aeróbico de intensidade elevada, parece seguro e pode trazer benefícios reais para pessoas com ataxia cerebelar — não apenas em fadiga e condicionamento, mas também nos próprios sintomas motores da doença, medidos por uma escala clínica validada.
Ainda assim, é importante manter as expectativas calibradas. O estudo envolveu um número relativamente pequeno de participantes (62 pessoas) em um único centro, o que limita a possibilidade de generalizar os achados para todos os perfis de ataxia. Também não é um tipo de exercício que deva ser iniciado sem orientação: treino aeróbico intenso exige avaliação prévia de segurança cardiovascular e, idealmente, acompanhamento de profissionais de saúde familiarizados com a condição neurológica de base.
Por fim, o próprio padrão observado no estudo — benefício que se mantém enquanto o treino continua e tende a regredir quando ele é interrompido — reforça que não se trata de uma "cura" ou de um tratamento pontual, mas de uma rotina que precisa ser sustentada ao longo do tempo para produzir efeito duradouro.
Os autores apontam a necessidade de ensaios maiores e multicêntricos para confirmar os achados em populações mais amplas e diversas. Outra prioridade citada é desenvolver estratégias mais eficazes para manter a adesão ao treino depois que o suporte estruturado inicial termina, já que a queda de adesão observada neste estudo parece ter sido um fator relevante para a perda de benefício em quem parou de treinar.
Também é mencionada a importância de entender melhor se diferentes subtipos de ataxia respondem de forma distinta ao exercício aeróbico, o que poderia ajudar a personalizar as recomendações no futuro.
Um ensaio clínico randomizado comparou treino aeróbico domiciliar com treino de equilíbrio em 62 pessoas com ataxia cerebelar ao longo de 12 meses. O grupo aeróbico teve melhora maior nos sintomas de ataxia, na fadiga e no condicionamento físico, com benefício mantido em um ano entre quem continuou treinando regularmente.
Os resultados são promissores e reforçam o papel do exercício físico no cuidado da ataxia cerebelar, mas vêm de um estudo unicêntrico e relativamente pequeno, e a manutenção do benefício parece depender da continuidade do treino — um desafio prático que pesquisas futuras ainda precisam resolver.
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Como Neurologista Especialista em Ataxia, Dr Diego de Castro concentra-se em oferecer a seus pacientes uma avaliação neurológica e investigação para diagnóstico.
Por vezes, esse caminho é fonte de grande estresse e ansiedade para pacientes e familiares, mas perseguir o diagnóstico é realmente importante.
Pessoas cujos sintomas estão piorando com o tempo, um atendimento multidisciplinar e de longo prazo pode ajudar. Trabalhar em conjunto com outras especialidades, incluindo fisioterapia, dieta, aconselhamento genético e fonoaudiologia ajuda a identificar condições subjacentes e gerenciar sintomas.
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Dr Diego de Castro é Neurologista pela USP especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética.
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