

A Ataxia de Friedreich é uma doença genética rara que ainda não tem cura, e boa parte da pesquisa atual tenta resolver o mesmo problema: repor a frataxina, a proteína que falta nas células de quem convive com a doença. Um estudo publicado na revista Cell Reports Medicine testou uma nova forma de fazer essa reposição, usando células-tronco da medula óssea modificadas geneticamente para funcionar como pequenas "fábricas" de frataxina.
Em camundongos, a estratégia retardou o surgimento de problemas de equilíbrio e coordenação. É um resultado promissor, mas ainda distante de aplicação em pacientes.
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Na semana passada, publicamos aqui um estudo que testou, em pacientes, uma terapia gênica voltada ao coração na Ataxia de Friedreich. A pesquisa de hoje busca o mesmo objetivo, repor a frataxina, mas por um caminho diferente e em uma etapa bem mais inicial. Colocar os dois estudos lado a lado ajuda a entender que a terapia gênica não é uma estratégia única, e que cada abordagem está em um ponto distinto do longo percurso entre o laboratório e o consultório.
Há ainda um motivo específico para olhar com atenção para este trabalho. Um dos maiores obstáculos no tratamento das doenças neurológicas é fazer um medicamento chegar ao cérebro, protegido por uma barreira que bloqueia a passagem da maioria das substâncias. A estratégia testada aqui tenta contornar esse problema usando células que naturalmente conseguem alcançar o sistema nervoso. Por outro lado, resultados em camundongos costumam gerar expectativas que não correspondem à realidade de quem convive com a doença hoje, e por isso vale explicar com cuidado o que o estudo mostrou e o que ainda não permite afirmar.
Segundo a Mayo Clinic, a Ataxia de Friedreich é uma doença hereditária causada por uma alteração no gene FXN, que reduz a produção de frataxina. Essa proteína é essencial para o funcionamento das mitocôndrias, as estruturas que geram energia dentro das células. Sem frataxina suficiente, diferentes tecidos são afetados: os nervos e o cerebelo, o que causa desequilíbrio e falta de coordenação, mas também os músculos e o coração, além de haver maior risco de diabetes.
Estudos anteriores já haviam mostrado que transplantar células-tronco de medula óssea saudáveis em camundongos com a doença melhorava parcialmente os sintomas. Parte dessas células se transforma em células de defesa capazes de chegar ao sistema nervoso e transferir frataxina para os neurônios. Essa abordagem, porém, tinha duas limitações: o efeito era apenas parcial e, por usar células de um doador, trazia o risco de rejeição e de complicações graves do transplante.
A proposta do novo estudo foi usar as células-tronco do próprio animal, modificadas em laboratório para produzir e liberar continuamente uma versão da frataxina capaz de entrar em outras células do organismo.
As duas pesquisas que publicamos têm diferenças importantes. No estudo da JAMA Cardiology, 17 pacientes receberam a infusão de um vírus modificado que leva o gene da frataxina diretamente às células do coração. No estudo atual, os pesquisadores modificaram células-tronco da medula óssea para que elas próprias liberassem no organismo uma versão da frataxina capaz de entrar em outras células. Além disso, os testes foram feitos apenas em camundongos, com foco no equilíbrio, na coordenação e nos neurônios do cerebelo.
Os pesquisadores criaram uma versão modificada da frataxina, unida a pequenos trechos de proteína que permitem que ela seja liberada pela célula que a produz e que penetre em outras células. O trecho responsável pela penetração é de origem humana, escolhido para reduzir o risco de reações do sistema imunológico. Em células da pele de pacientes com Ataxia de Friedreich, essa proteína chegou às mitocôndrias, protegeu as células contra danos oxidativos e melhorou o aspecto das mitocôndrias.
Em seguida, a instrução genética para produzir essa proteína foi inserida em um vetor viral (lentivírus) e usada para modificar células-tronco da medula óssea de camundongos que reproduzem a doença. Os animais receberam essas células aos dois meses de vida, antes do surgimento dos sintomas, depois de passarem por irradiação para eliminar a medula óssea original, um preparo semelhante ao usado em transplantes de medula.
Foram testadas duas doses do vetor, e os resultados foram comparados com camundongos doentes sem tratamento, camundongos saudáveis e camundongos doentes que receberam células-tronco saudáveis sem modificação. O equilíbrio e a coordenação foram avaliados periodicamente por cerca de 40 semanas após o transplante. Os grupos eram pequenos, com poucos animais em cada um.
Por fim, os pesquisadores modificaram, em laboratório, células-tronco do sangue de três pacientes com a doença, para verificar se elas continuavam se desenvolvendo normalmente e se produziam a proteína.
Os camundongos que receberam a dose mais alta não apresentaram a piora progressiva do equilíbrio observada nos animais não tratados e tiveram melhor desempenho em um teste de coordenação motora. Já a dose mais baixa não mostrou benefício, o que sugere que é preciso atingir um nível mínimo de frataxina para haver efeito.
No cerebelo, os animais tratados com a dose mais alta tinham mais neurônios com frataxina em uma região chamada núcleo denteado, que costuma sofrer atrofia na doença. Esses neurônios também mantiveram um tamanho semelhante ao de camundongos saudáveis, enquanto nos animais não tratados eles eram menores.
No coração e nos músculos, os níveis de frataxina aumentaram de forma proporcional à dose, acompanhados pela melhora da atividade de uma enzima que depende dessa proteína. No cérebro, essa enzima também tendeu a aumentar, mas sem diferença estatisticamente confirmada.
A quantidade de frataxina no sangue começou a cair com o passar dos meses, embora os efeitos sobre o equilíbrio e o cerebelo tenham se mantido até o fim do acompanhamento. Os autores não observaram aumento de mortalidade nem alterações na formação das células do sangue entre os animais tratados. As células-tronco dos pacientes, modificadas em laboratório, se desenvolveram normalmente e passaram a liberar a proteína.

Para quem convive com a Ataxia de Friedreich, este estudo não representa um tratamento disponível ou próximo de estar disponível. Os resultados foram obtidos em um único modelo de camundongo, com poucos animais, e muitas etapas ainda separam essa estratégia de um teste em pessoas.
Alguns aspectos ajudam a colocar os achados em perspectiva. Os animais foram tratados antes do surgimento dos sintomas, enquanto a maioria dos pacientes recebe o diagnóstico quando a doença já se manifestou. Além disso, a técnica depende de um transplante de medula óssea, que exige um preparo intenso e tem riscos próprios.
O que o estudo mostra é que uma estratégia de reposição de frataxina por meio das próprias células-tronco do paciente é tecnicamente viável em laboratório e em camundongos. Os autores argumentam que, se confirmada, ela poderia oferecer uma reposição contínua e duradoura a partir de um único procedimento, mas essa ainda é uma hipótese a ser testada. Enquanto isso, o acompanhamento regular com neurologista e equipe multidisciplinar continua sendo fundamental.
Os autores apontam que serão necessários outros modelos animais para avaliar se a terapia prolonga a sobrevida e protege órgãos como o coração. Antes de qualquer pedido para iniciar testes em humanos, também será preciso um estudo dedicado de distribuição da terapia no organismo, com diferentes doses e um vetor produzido nos padrões exigidos para uso clínico.
Os efeitos dessa abordagem sobre o coração, que concentra algumas das complicações mais graves da doença, ainda não foram totalmente avaliados. Nesse aspecto, a terapia gênica voltada ao coração que comentamos na semana passada já está em uma fase mais avançada, com testes em pacientes.
Um estudo em camundongos testou uma terapia que modifica células-tronco da medula óssea para produzir e distribuir frataxina, a proteína que falta na Ataxia de Friedreich. Com a dose mais alta, os animais tratados antes dos sintomas preservaram melhor o equilíbrio, a coordenação e os neurônios do cerebelo. É um avanço relevante na pesquisa básica, mas ainda restrito ao laboratório: serão necessários novos estudos em animais e testes de segurança antes que a estratégia possa ser avaliada em pessoas.
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Como Neurologista Especialista em Ataxia, Dr Diego de Castro concentra-se em oferecer a seus pacientes uma avaliação neurológica e investigação para diagnóstico.
Por vezes, esse caminho é fonte de grande estresse e ansiedade para pacientes e familiares, mas perseguir o diagnóstico é realmente importante.
Pessoas cujos sintomas estão piorando com o tempo, um atendimento multidisciplinar e de longo prazo pode ajudar. Trabalhar em conjunto com outras especialidades, incluindo fisioterapia, dieta, aconselhamento genético e fonoaudiologia ajuda a identificar condições subjacentes e gerenciar sintomas.
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Dr Diego de Castro é Neurologista pela USP especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética.
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