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Como a psilocibina age na depressão? Estudo analisou o líquor de pacientes

Dr Diego de Castro
08/10/2026
Dr Diego de Castro Neurologia
Autor: 
Dr. Diego de Castro dos Santos

CRM-SP 160074 / CRM-ES 11.111
Neurofisiologia clínica - RQE 74154
Neurologia - RQE 74153.
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A psilocibina, substância psicoativa de certos cogumelos que faz parte do grupo dos psicodélicos, vem sendo testada em pesquisas clínicas como possível tratamento para a depressão.

Um estudo do Karolinska Institutet, na Suécia, analisou agora o que muda no líquor (o líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal) de pacientes com depressão após receberem a substância em um ensaio clínico: duas substâncias químicas, a galanina e a noradrenalina, estavam mais baixas do que no grupo comparador, e a queda da galanina foi a que mais acompanhou a melhora dos sintomas. É um indício biológico interessante, mas ainda não explica como a psilocibina age nem a transforma em tratamento disponível.

Por que estamos publicando isso agora

O estudo saiu em julho de 2026, e o interesse por psicodélicos na depressão segue alto, muitas vezes com mais entusiasmo do que evidência. Este trabalho é um bom exemplo para o leitor aprender a diferença entre associação e causa: ele mostra que algo muda no líquor junto com a melhora clínica, mas não mostra que essa mudança produz a melhora.

Também vale registrar que os próprios autores descrevem o achado como um candidato a marcador biológico que precisa ser confirmado em grupos maiores.

Contexto

A depressão é uma das principais causas de incapacidade no mundo, e uma parte importante dos pacientes não alcança remissão com os tratamentos de primeira linha. Isso mantém a busca por terapias novas e por marcadores biológicos que ajudem a entender como cada tratamento funciona.

A psilocibina é um psicodélico clássico: atua principalmente em receptores de serotonina e altera a percepção e o estado de consciência. Encontrada em alguns cogumelos, vem sendo estudada em pesquisas clínicas como possível tratamento de ação rápida para a depressão, sempre administrada em ambiente controlado e com acompanhamento profissional.

O ensaio clínico que deu origem a esta análise foi publicado em maio de 2026 e apontou melhora maior dos sintomas com psilocibina do que com o comparador no oitavo dia de acompanhamento. Nesse mesmo ensaio, dois participantes do grupo psilocibina tiveram ansiedade intensa e persistente que exigiu atendimento médico, um lembrete de que o tratamento não é isento de riscos.

Duas substâncias ganham destaque neste novo estudo. A noradrenalina é um neurotransmissor ligado ao estado de alerta e à resposta ao estresse. A galanina é um neuropeptídeo, uma pequena molécula mensageira, que no locus coeruleus (região do tronco encefálico que produz noradrenalina) costuma aparecer junto com ela e pode reduzir a atividade desses neurônios. Estudos anteriores, em tecido cerebral pós-morte, em genética e em animais, já tinham sugerido alguma ligação entre a galanina e a depressão.

Metodologia

Trata-se de uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado e controlado, ou seja, os pesquisadores voltaram aos participantes e às amostras do ensaio original para investigar perguntas biológicas que não eram o foco principal daquele estudo.

  • Participantes e comparador: 35 pessoas com transtorno depressivo maior foram sorteadas para receber psilocibina por via oral ou niacina, um comparador chamado de placebo ativo, usado para que os participantes não saibam com certeza qual substância receberam. Houve acompanhamento por psicólogos durante o procedimento, com médico disponível se necessário.
  • Coleta do líquor: por punção lombar, 1 a 2 dias antes da dose e cerca de 14 dias depois.
  • Quem entrou na análise: apenas pessoas com as duas coletas disponíveis, 14 do grupo psilocibina e 11 do grupo comparador, 25 no total.
  • O que foi medido: neurotransmissores e seus metabólitos no líquor, um painel de proteínas, citocinas (moléculas ligadas à inflamação), BDNF (proteína associada à plasticidade dos neurônios) e a proteína p11 em células do sangue. A melhora clínica foi avaliada pela escala MADRS, instrumento validado de gravidade da depressão.
Infográfico em três etapas: silhueta da cabeça e da coluna com o líquor destacado, coleta de líquor por punção lombar e dois frascos comparando antes e depois, com menos partículas no segundo, representando a redução de duas substâncias medidas no estudo.

Principais achados

  • Galanina menor: o grupo psilocibina apresentou queda da galanina no líquor, tanto em relação ao seu próprio nível inicial quanto em comparação ao grupo comparador. Os autores consideram este o achado mais robusto do estudo.
  • Noradrenalina menor: entre os neurotransmissores monoaminérgicos medidos, a noradrenalina foi a única que mudou de forma diferente entre os grupos.
  • Outras proteínas: a esclerostina (SOST) diminuiu e a CLUL1 aumentou no grupo psilocibina. Nenhuma delas havia sido ligada antes à depressão, à psilocibina ou à niacina, então esses dados são exploratórios.
  • Relação com a melhora clínica: a variação da galanina foi a que mais acompanhou a variação da pontuação na MADRS, no sentido esperado: quanto maior a queda da galanina, maior a melhora dos sintomas.
  • O que não mudou: não houve diferenças significativas em citocinas, BDNF nem p11. Os autores lembram que o momento da coleta pode ter deixado passar efeitos que acontecem mais cedo.

O que isso significa para os pacientes?

A principal mensagem é de cautela. O estudo mostra uma associação: pessoas que melhoraram mais também tiveram maior queda da galanina. Isso não prova que a queda da galanina seja a causa da melhora. Ela pode ser consequência, pode caminhar em paralelo por outro motivo ou refletir um mecanismo ainda não identificado. Os próprios autores levantam hipóteses sobre como galanina e noradrenalina se relacionam, mas elas ainda precisam ser testadas.

Há limitações importantes:

  • a amostra é pequena para esse tipo de análise bioquímica, e os autores reconhecem que o estudo pode não ter poder para detectar efeitos mais discretos;
  • o líquor foi coletado em um único momento após o tratamento, o que pode não capturar mudanças que ocorrem em outros prazos;
  • os participantes eram clinicamente variados (gravidade, histórico de tratamento), o que pode diluir efeitos que apareceriam em grupos mais homogêneos;
  • não há como saber, com esses dados, se a galanina serviria como exame para prever ou acompanhar a resposta ao tratamento.

Na prática, este estudo não indica um novo tratamento nem um exame pronto para uso. A psilocibina continua sendo investigada em pesquisas clínicas e não deve ser buscada por conta própria, fora de protocolos de estudo e de acompanhamento médico. Quem convive com depressão deve discutir as opções de tratamento com seu médico, e qualquer mudança de conduta passa por avaliação profissional.

Próximos passos

Os autores indicam que a galanina reduzida no líquor é um candidato a marcador que precisa ser validado em grupos maiores e relacionado de forma mais detalhada aos desfechos clínicos. Também apontam que coletas em outros momentos poderiam captar efeitos que um único ponto de coleta deixa passar, e que subgrupos mais homogêneos de pacientes poderiam revelar efeitos mais claros.

Segundo o Karolinska, o projeto também prevê analisar exames de PET para investigar se a psilocibina altera a densidade das sinapses no cérebro.

Em resumo

Um estudo sueco com 25 pacientes com amostras pareadas mostrou que, duas semanas após a psilocibina, o líquor apresentava menos galanina e menos noradrenalina do que o do grupo comparador, e que a queda da galanina foi a que mais acompanhou a melhora dos sintomas. É uma pista sobre como a psilocibina pode atuar no sistema nervoso, não a descoberta do mecanismo do efeito antidepressivo e não uma indicação de tratamento pronto. Antes de qualquer conclusão, os achados precisam ser repetidos em grupos maiores.

Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.

Referência

Dr Diego de Castro Neurologista & Neurofisiologista

Dr Diego de Castro é Neurologista e neurofisiologista pela USP e cuida de pessoas com diferentes condições neurológicas por meio de estimulação magnética transcraniana e outras técnicas de neuromodulação.

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Dr Diego de Castro dos Santos é Neurologista pela USP e responsável pelo Serviço de Especialidades Neurológicas – Eletroneuromiografia. Atua como neurologista em Vitória Espírito Santo ES e em São Paulo no tratamento de Dor de Cabeça, Depressão, Doença de Parkinson, Miastenia gravis e outras doenças. Também se dedica a reabilitação de pacientes com AVC, distonias e crianças com paralisia cerebral, por meio de aplicação de toxina botulínica (Botox) e neuromodulação.
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