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Canabidiol funciona na síndrome de Lennox-Gastaut? O que um estudo com adultos mostra e o que ainda não prova

Dr Diego de Castro
30/10/2026
Dr Diego de Castro Neurologia
Autor: 
Dr. Diego de Castro dos Santos

CRM-SP 160074 / CRM-ES 11.111
Neurofisiologia clínica - RQE 74154
Neurologia - RQE 74153.
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Um estudo com 79 adultos com síndrome de Lennox-Gastaut, uma forma grave de epilepsia que costuma começar na infância e responde mal aos medicamentos, sugere que o canabidiol, usado como complemento ao tratamento, pode estar associado a menos crises: boa parte dos pacientes teve redução relevante ao longo de cerca de três anos e meio. O trabalho foi publicado na European Journal of Neurology e acompanhou 79 adultos com essa síndrome que usavam canabidiol como complemento ao tratamento já em andamento. Ao longo de cerca de três anos e meio, boa parte deles teve menos crises.

Como não havia grupo de comparação, os resultados indicam uma associação e não provam que o canabidiol foi a causa da melhora.

Por que estamos publicando isso agora

O canabidiol para a síndrome de Lennox-Gastaut já é aprovado nos Estados Unidos e na Europa, com base em ensaios clínicos randomizados que incluíram sobretudo crianças e adolescentes. Sobre adultos, e sobre o que acontece depois do primeiro ano de uso, há bem menos informação. Este estudo ajuda a preencher essa lacuna, com a ressalva de que é uma observação da prática clínica e não um ensaio controlado. Vale comentar por isso: ele mostra como o tratamento se comporta no dia a dia de um serviço de epilepsia, sem substituir as evidências dos ensaios.

Já publicamos aqui um texto sobre canabidiol na dor neuropática crônica após lesão medular. O assunto de hoje é outro: epilepsia grave de início na infância, em adultos, com um tipo de evidência diferente.

Contexto

Na síndrome de Lennox-Gastaut, as crises são frequentes e de vários tipos. Entre as mais temidas estão as "crises de queda", em que a pessoa cai de repente e pode se machucar.

Muitos pacientes já tentaram vários medicamentos antiepilépticos, e a síndrome costuma vir acompanhada de dificuldades cognitivas e de comportamento. O canabidiol purificado, em solução oral, é usado como complemento a esses medicamentos, e não como substituto.

Metodologia

Os pesquisadores revisaram, de forma retrospectiva, os dados de 79 adultos com a síndrome tratados com canabidiol em um único centro. As informações vieram de prontuários eletrônicos e de diários de crises padronizados, preenchidos pelos cuidadores. Retrospectivo significa que os autores olharam para trás, para registros já existentes, em vez de acompanhar os pacientes desde o início segundo um protocolo definido de antemão.

As crises foram avaliadas em três momentos: antes do início do canabidiol, aos 6 meses e no último acompanhamento. A mediana de seguimento foi de 41 meses, pouco mais de três anos. A mediana de idade dos participantes foi de 29 anos.

Principais achados

  • Redução das crises. Cerca de 6 em cada 10 pacientes tiveram redução de pelo menos metade das crises aos 6 meses, e esse grupo chegou a cerca de 7 em cada 10 no último acompanhamento. Esses números consideram todos os tipos de crise.
  • Crises de queda. A proporção de pacientes com redução relevante foi um pouco menor do que no conjunto das crises, tanto aos 6 meses quanto no final do seguimento.
  • Dias sem crise. O número de dias livres de crise por mês mais que dobrou. Mesmo assim, na média, ainda restavam muitos dias com crises a cada mês.
  • Internações e lesões. Hospitalizações e lesões relacionadas às crises diminuíram.
  • Permanência no tratamento. A grande maioria dos pacientes (86%) continuava usando o canabidiol no fim do acompanhamento.
  • Outros medicamentos. Catorze pacientes conseguiram suspender pelo menos um outro medicamento antiepiléptico.
  • Cognição e comportamento. Cerca de 6 em cada 10 pacientes tiveram melhora cognitiva ou comportamental relatada, mas essa melhora não esteve estatisticamente ligada à redução das crises.
  • Segurança. Os autores descrevem os efeitos adversos como, em sua maioria, ligados a interações com outros medicamentos e em geral manejáveis com ajustes na medicação. Quatro pacientes morreram durante o seguimento, por causas consideradas não relacionadas ao canabidiol.
Ilustração em corte de um cérebro adulto, com o tálamo e conexões neurais corticais destacados em tons de azul e dourado.

O que o estudo não permite concluir

  • Sem grupo de comparação. Sem um grupo que não recebeu o canabidiol, não dá para separar o efeito do medicamento de outros fatores: mudanças em outros remédios no mesmo período, flutuações naturais da síndrome e o fato de os cuidadores registrarem as crises com mais atenção.
  • Um único centro. Os resultados podem não se repetir em outros serviços ou populações.
  • Relato dos cuidadores. Diários de crises são úteis, mas dependem da observação e do registro de quem cuida, e a melhora cognitiva e comportamental também é subjetiva.
  • Benefício parcial. Houve menos crises, mas não ausência de crises. Os dados não sugerem que o canabidiol controle a síndrome por completo.
  • Não é prova de eficácia. A comprovação do efeito do canabidiol na síndrome continua vindo dos ensaios clínicos randomizados. Este estudo os complementa, sem substituí-los.

O que isso significa para os pacientes?

Para quem convive com a síndrome de Lennox-Gastaut, o estudo sugere que o canabidiol, como complemento, pode continuar associado a menos crises e a boa permanência no tratamento ao longo de vários anos, inclusive em adultos. É um dado tranquilizador, mas não uma garantia individual: a resposta varia de pessoa para pessoa.

Algumas orientações práticas, que não decorrem diretamente deste estudo e não substituem a avaliação médica:

  • Quem usa canabidiol não deve alterar a dose nem suspender o tratamento por conta própria. Outros antiepilépticos, em especial o clobazam, podem interagir com o canabidiol, e ajustes devem ser decididos pela equipe médica.
  • Manter o diário de crises, com data, tipo e duração, ajuda o neurologista a avaliar se o tratamento está funcionando. Foi esse tipo de registro que sustentou os dados do estudo.
  • No Brasil, o canabidiol segue regras próprias. Até o momento, os produtos de canabidiol disponíveis aqui são regulados pela Anvisa como produtos de cannabis, e não como medicamentos com indicação aprovada para epilepsia, e só podem ser usados com prescrição médica. Em adultos, a indicação é avaliada caso a caso pelo neurologista. Produtos sem controle de composição não são equivalentes ao que foi usado na pesquisa.

Próximos passos

Para confirmar esses achados, seriam necessários estudos com acompanhamento prospectivo, vários centros e, se possível, comparação com pacientes que não usam o canabidiol, com atenção específica aos adultos. Também falta entender melhor por que alguns pacientes respondem e outros não, e como a melhora cognitiva e comportamental relatada se relaciona (ou não) com as crises.

Em resumo

  • Adultos com síndrome de Lennox-Gastaut que usaram canabidiol como complemento tiveram, em boa parte, menos crises ao longo de mais de três anos, e a maioria manteve o tratamento.
  • O estudo é retrospectivo, de um único centro e sem grupo de comparação, então mostra associação e não prova causa.
  • O benefício foi parcial: houve redução das crises, não ausência delas.
  • Qualquer ajuste de dose ou de outros medicamentos deve ser decidido com o neurologista.

Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.

Referência

Dr Diego de Castro Neurologista

Dr Diego de Castro é Neurologista pela USP especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Conhece algum paciente com epilepsia? Tem dúvidas sobre o seu caso? Estamos a disposição para uma consulta clínica e avaliação.

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Dr Diego de Castro dos Santos é Neurologista pela USP e responsável pelo Serviço de Especialidades Neurológicas – Eletroneuromiografia. Atua como neurologista em Vitória Espírito Santo ES e em São Paulo no tratamento de Dor de Cabeça, Depressão, Doença de Parkinson, Miastenia gravis e outras doenças. Também se dedica a reabilitação de pacientes com AVC, distonias e crianças com paralisia cerebral, por meio de aplicação de toxina botulínica (Botox) e neuromodulação.
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