

A dieta do Mediterrâneo vem sendo estudada por sua associação com menor risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, acidente vascular cerebral e declínio cognitivo. Estudos observacionais e meta-análises recentes sugerem que pessoas com maior adesão a esse padrão alimentar podem apresentar menor risco de demência e doença de Alzheimer. No entanto, a evidência ainda não permite afirmar que a dieta, sozinha, previna ou impeça o Alzheimer.
Segundo a Mayo Clinic, esta forma de alimentação é caracterizada pela alta ingestão de vegetais, legumes, frutas e cereais; alta ingestão de ácidos graxos insaturados (principalmente na forma de azeite de oliva), mas baixa ingestão de ácidos graxos saturados; uma ingestão moderadamente alta de peixe; uma ingestão baixa a moderada de produtos lácteos (principalmente queijo ou iogurte); baixa ingestão de carne e aves.
Neste artigo, Dr. Diego de Castro, Neurologista e Neurofisiologista pela USP, explica a relação entre a ingestão destes alimentos e a prevenção do declínio cognitivo, especialmente da doença de Alzheimer.
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Comer uma dieta ao estilo mediterrâneo pode reduzir o risco de desenvolver problemas com a memória e o raciocínio, podendo evitar algumas formas de demência, já que as dietas mediterrâneas são tradicionalmente ricas em frutas, verduras, legumes e cereais, com consumo moderado de peixes oleosos e laticínios, e baixo teor de carne, açúcar e gordura saturada. A maior parte da gordura neste tipo de dieta vem do azeite e o vinho é consumido com moderação nas refeições.
Em descrições tradicionais da dieta mediterrânea, o vinho aparece em pequenas quantidades e geralmente acompanhado das refeições. Isso não significa que o álcool seja necessário ou recomendado para proteger a memória. Pessoas que não bebem não devem começar a beber por causa da dieta. O consumo de álcool deve considerar idade, medicamentos, doenças do fígado, risco de quedas, histórico de dependência e outras condições clínicas.
Não é necessário importar alimentos nem reproduzir exatamente o cardápio de países mediterrâneos. Na prática, o padrão pode ser adaptado à alimentação brasileira: arroz e feijão, hortaliças, frutas da estação, aveia, milho, mandioca, lentilha, castanhas, sementes, sardinha e outros peixes podem participar de uma alimentação de boa qualidade.
O objetivo é aumentar a presença de alimentos in natura ou minimamente processados e reduzir ultraprocessados, carnes processadas, doces e bebidas açucaradas. A melhor dieta é aquela que também é nutricionalmente adequada, acessível e possível de manter.
A dieta MIND é uma adaptação que combina elementos da dieta mediterrânea e da dieta DASH, voltada para a saúde cardiovascular. Ela dá ênfase a vegetais de folhas verdes, frutas vermelhas, feijões, castanhas, grãos integrais, peixe e azeite de oliva. Ao mesmo tempo, limita carnes vermelhas, manteiga, queijos muito gordurosos, doces, frituras e alimentos ultraprocessados. A MIND é uma hipótese nutricional promissora, mas não deve ser apresentada como tratamento comprovado do Alzheimer.
A Alzheimer's Society explica que a associação entre alta aderência à dieta do mediterrâneo e menor risco de Alzheimer pode ser mediada pelo efeito composto de alguns de seus componentes benéficos, como maior consumo de peixe, frutas e vegetais ricos em antioxidantes como a vitamina C, vitamina E, flavonoides e maior consumo de ácidos graxos insaturados.
Os possíveis mecanismos são múltiplos e ainda estão sendo investigados. A dieta mediterrânea fornece fibras, polifenóis, vitaminas e gorduras insaturadas, além de reduzir a participação de alimentos ricos em gordura saturada, açúcar e sódio.
Esse conjunto pode favorecer o controle da pressão arterial, da glicemia, do colesterol e da inflamação sistêmica. Estudos experimentais recentes também observaram diferenças em perfis de expressão gênica relacionados à inflamação no cérebro e no sangue de animais alimentados com padrão mediterrâneo ou ocidental. Esses achados ajudam a explicar uma possível relação biológica, mas não comprovam, por si só, que a dieta impeça a formação de placas de beta-amiloide ou emaranhados de tau em humanos.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2024 reuniu 21 estudos e mais de 65 mil participantes. A maior adesão à dieta mediterrânea esteve associada a aproximadamente 11% menos risco de demência em geral e 27% menos risco de doença de Alzheimer.
Em 2025, outra meta-análise, com 23 estudos, encontrou associações com menor comprometimento cognitivo, demência e Alzheimer. Os autores estimaram uma redução relativa de cerca de 18% no declínio cognitivo, 11% no risco de demência e 30% no risco de Alzheimer entre os grupos com maior adesão. Esses números representam associações populacionais, e não uma previsão individual ou uma garantia de prevenção.
É importante interpretar esses resultados com cautela. A maioria dos estudos reunidos nas meta-análises é observacional: os pesquisadores acompanham os hábitos alimentares das pessoas e observam quais grupos desenvolvem demência ao longo do tempo. Pessoas que seguem uma dieta mediterrânea também podem praticar mais atividade física, fumar menos, ter melhor acesso a cuidados de saúde e controlar melhor a pressão arterial e o diabetes. Esses fatores podem contribuir para o resultado. Por isso, ainda são necessários ensaios clínicos maiores e mais longos para determinar quanto do benefício é causado especificamente pela dieta.
Os ensaios clínicos trazem uma perspectiva mais equilibrada. Em um estudo randomizado com 604 adultos mais velhos e história familiar de demência, a dieta MIND foi comparada a uma dieta de controle com leve restrição calórica durante três anos. A cognição melhorou nos dois grupos, mas a diferença entre eles não foi estatisticamente significativa. Também não houve diferença relevante em medidas de volume cerebral e lesões da substância branca.
Esse resultado não significa que a alimentação saudável seja inútil; ele mostra que os efeitos específicos de uma dieta sobre a prevenção do declínio cognitivo ainda não estão completamente definidos. E a alimentação é apenas uma parte da prevenção. O relatório de 2024 da Lancet Commission reforçou a importância de abordar vários fatores modificáveis ao longo da vida, incluindo hipertensão, perda auditiva, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, isolamento social e colesterol elevado. Cuidar desses fatores não elimina o risco de demência, mas pode contribuir para uma vida cerebral mais saudável.
Mantenha um diálogo aberto com seu neurologista de confiança sobre as mudanças alimentares que podem favorecer uma maior longevidade.
A dieta do Mediterrâneo é um padrão alimentar baseado principalmente em verduras, legumes, frutas, feijões, grãos integrais, castanhas, sementes, peixe e azeite de oliva. Ela também propõe reduzir o consumo de carnes processadas, carne vermelha em excesso, doces, bebidas açucaradas, frituras e outros alimentos ultraprocessados.
Estudos recentes associam maior adesão a esse padrão a menor risco de declínio cognitivo, demência e doença de Alzheimer. Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados com responsabilidade. A maior parte das evidências ainda é observacional. Portanto, não é possível afirmar que a dieta mediterrânea, sozinha, impeça o Alzheimer.
O benefício provável não depende de um alimento isolado. Ele parece estar relacionado ao conjunto do padrão alimentar e ao estilo de vida associado: melhor controle dos fatores cardiovasculares, maior ingestão de fibras e gorduras insaturadas, menor consumo de ultraprocessados e maior qualidade geral da alimentação.
Em termos práticos, a mudança deve ser gradual e individualizada. Para algumas pessoas, uma versão adaptada à culinária brasileira pode ser mais realista e sustentável do que tentar reproduzir exatamente o cardápio de países mediterrâneos.
Seu médico e nutricionista podem ajudar a adaptar as escolhas à presença de diabetes, doença renal, dificuldade para mastigar ou engolir, perda de peso, uso de anticoagulantes e outras necessidades clínicas.
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