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Ecopipam para Tourette: o que mostram os novos dados de 18 meses

Dr Diego de Castro
15/10/2026
Dr Diego de Castro Neurologia
Autor: 
Dr. Diego de Castro dos Santos

CRM-SP 160074 / CRM-ES 11.111
Neurofisiologia clínica - RQE 74154
Neurologia - RQE 74153.
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O ecopipam, medicamento experimental para a síndrome de Tourette, manteve a redução dos tiques por até 18 meses em um estudo aberto, segundo dados apresentados no congresso da Movement Disorder Society (MDS 2026), em Seul. O resultado é promissor, mas ainda preliminar: a análise não tinha grupo placebo, não passou por revisão de pares e o medicamento ainda não foi aprovado.

Por que estamos publicando isso agora

O blog já havia tratado do ecopipam em agosto (veja também o post anterior sobre o ecopipam). O que há de novo agora não é o mesmo resultado repetido: são dados sobre a duração do efeito, uma pergunta central em uma condição crônica, e sobre o uso em pessoas que também têm TDAH, TOC, ansiedade ou depressão, situação comum no Tourette.

Há ainda um motivo de leitura crítica. Os números foram divulgados pela fabricante, em formato de comunicado, e frases como "cerca de 70% tiveram melhora" circulam sem o contexto de como foram obtidas. A decisão da FDA, a agência regulatória dos Estados Unidos, está prevista para o fim do primeiro trimestre de 2027, e é nesse intervalo que famílias e pacientes mais ouvem falar do medicamento. Vale separar o que é dado controlado, o que é preliminar e o que ainda é pergunta em aberto.

Contexto

A síndrome de Tourette é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por tiques motores e vocais, que costumam começar na infância. Os medicamentos hoje aprovados para tiques, como haloperidol, pimozida e aripiprazol, atuam bloqueando o receptor D2 de dopamina e podem causar sedação, alterações metabólicas e problemas de movimento. Por isso, muitas famílias buscam alternativas.

O ecopipam funciona de outra forma. Ele bloqueia seletivamente o receptor D1 de dopamina. A hipótese de trabalho é que uma sensibilidade aumentada desse receptor possa contribuir para os tiques, mas o mecanismo exato no Tourette ainda não está totalmente esclarecido. O medicamento é investigacional: foi estudado em crianças, adolescentes e adultos, mas o pedido de registro nos Estados Unidos é apenas para uso pediátrico.

Metodologia

Os dados apresentados no MDS 2026 vêm do programa de estudos chamado D1AMOND e reúnem três conjuntos de resultados:

  1. Análise combinada das fases 2b e 3, feita depois que os estudos terminaram (post hoc), com 292 participantes, olhando a resposta nas primeiras 8 semanas. A melhora foi medida pela escala YGTSS-TTS, que pontua a gravidade dos tiques motores e vocais; "resposta" foi definida como redução de pelo menos 25% na pontuação.
  2. Análise interina de uma extensão aberta que acompanha, por até 36 meses, 118 crianças, adolescentes e adultos que haviam concluído estudos anteriores. A exposição mediana ao medicamento foi de cerca de 15 meses. "Aberta" significa que todos sabem que estão tomando o medicamento e não há grupo placebo.
  3. Análise por comorbidades com os 216 participantes da fase 3, comparando 129 pessoas com TDAH, TOC, ansiedade ou depressão e 87 sem essas condições.

Esses números foram divulgados pela Teva, empresa que apresentou os dados e submeteu o pedido à FDA. Os estudos foram financiados pela Emalex Biosciences, desenvolvedora do medicamento, e parte dos autores tem vínculo com a empresa. Os resultados do congresso ainda não foram publicados em periódico científico revisado por pares.

Principais achados

Resposta precoce. Cerca de sete em cada dez participantes (69,8%) tiveram redução de pelo menos 25% na gravidade dos tiques nas primeiras 8 semanas. Nesse período, os efeitos adversos mais relatados foram sonolência e dor de cabeça. Como é uma análise post hoc, sem comparação com placebo, ela sugere uma resposta relativamente rápida, mas não mede quanto disso se deve ao medicamento.

Efeito mantido por 18 meses. Na extensão aberta, a redução média da gravidade dos tiques foi de 45,6% aos 18 meses, e a empresa relata que não surgiram novos sinais de segurança. Os eventos adversos mais frequentes foram resfriado comum, infecções de vias aéreas superiores, ansiedade, diarreia, gripe, febre e insônia. Vários deles são comuns na infância, e sem grupo placebo não dá para saber quanto se deve ao medicamento.

Comorbidades. A redução dos tiques foi semelhante em quem tinha e em quem não tinha TDAH, TOC, ansiedade ou depressão, e a segurança também foi parecida entre os grupos. Análises anteriores do programa já não haviam apontado piora dessas condições em comparação com o placebo.

O dado controlado que sustenta o conjunto. O resultado mais sólido continua sendo o da fase 3, publicado na revista JAMA Neurology em maio de 2026. Nesse estudo, participantes que já tinham respondido ao medicamento foram sorteados para continuar ou trocar por placebo durante 12 semanas. Entre as crianças e adolescentes, a recaída ocorreu em cerca de 42% de quem continuou o ecopipam e em cerca de 68% de quem passou ao placebo.

Ilustração conceitual de um antagonista bloqueando o receptor D1 de dopamina em um neurônio estriatal, mecanismo estudado para o ecopipam.

O que esses dados não mostram

  • Não mostram que o ecopipam funciona melhor ou é mais seguro do que os tratamentos atuais, porque não houve comparação direta.
  • A extensão aberta inclui apenas quem concluiu estudos anteriores e quis continuar, o que pode favorecer quem tolerava bem o medicamento. Além disso, não sabemos quantas pessoas foram avaliadas aos 18 meses.
  • Os tiques costumam variar ao longo do tempo e, em muitas pessoas, diminuem na adolescência. Sem placebo, não é possível separar o efeito do medicamento dessa variação natural.
  • A fase 3 mostrou que a resposta se mantém em quem já respondeu, e não que todos os pacientes respondem.
  • Os números do congresso são resultados da empresa, ainda sem revisão por pares.

O que isso significa para os pacientes?

Para as famílias, o recado é de cautela com esperança. O ecopipam não é um tratamento disponível para prescrição de rotina e não deve ser buscado por conta própria. Os dados reforçam, porém, que existe uma linha de pesquisa séria sobre uma alternativa aos medicamentos atuais, com resultados controlados na fase 3 e sinais de duração do efeito na extensão.

Na prática, nada muda hoje no manejo do Tourette. O cuidado continua sendo individualizado, com avaliação neurológica, orientação à família e à escola, abordagens comportamentais e, quando indicado, medicamentos. Quem já faz tratamento não deve alterar ou interromper medicamentos por causa dessa notícia sem conversar com o médico que acompanha. O fato de a FDA ter avaliado o pedido não vale automaticamente para o Brasil, onde cada agência analisa por conta própria.

Próximos passos

  • Decisão da FDA: prevista para o fim do primeiro trimestre de 2027, para o uso pediátrico. Uma aprovação nos Estados Unidos não significa disponibilidade imediata no Brasil.
  • Extensão aberta: segue em andamento, com acompanhamento planejado de até 36 meses. Os dados completos de segurança e durabilidade ainda precisam ser publicados e revisados por pares.
  • Perguntas em aberto: comparação com os tratamentos atuais, resultados em adultos (a fase 3 sorteou poucos adultos) e segurança a longo prazo em estudos com grupo de comparação.

Em resumo

Os novos dados do MDS 2026 sugerem que a redução dos tiques com o ecopipam pode se manter por até 18 meses e que o efeito não parece ser pior em pessoas com TDAH, TOC, ansiedade ou depressão. Como vêm de uma extensão aberta, sem grupo placebo e divulgada pela empresa, esses resultados indicam um sinal favorável, e não uma prova de eficácia a longo prazo.

O dado controlado mais sólido continua sendo o da fase 3, e o medicamento ainda aguarda a decisão da FDA. Para quem convive com o Tourette, a mensagem é acompanhar a pesquisa com interesse e manter o tratamento atual sob orientação médica.

Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.

Referências

Dr Diego de Castro Neurologista e Neurofisiologista

Dr Diego de Castro Neurologista pela USP especialista em tiques nervosos e transtornos do movimento.

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Neurologia - Dr Diego de Castro
Dr Diego de Castro dos Santos é Neurologista pela USP e responsável pelo Serviço de Especialidades Neurológicas – Eletroneuromiografia. Atua como neurologista em Vitória Espírito Santo ES e em São Paulo no tratamento de Dor de Cabeça, Depressão, Doença de Parkinson, Miastenia gravis e outras doenças. Também se dedica a reabilitação de pacientes com AVC, distonias e crianças com paralisia cerebral, por meio de aplicação de toxina botulínica (Botox) e neuromodulação.
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