

A reabilitação cognitiva pode ajudar na névoa mental da covid longa? Um estudo piloto da UAB sugere que sim, mas com apenas 14 participantes e sem confirmação em estudo maior.
A "névoa mental" da covid longa pode durar meses e atrapalhar desde tarefas simples da casa até o retorno ao trabalho. Um estudo publicado na revista Rehabilitation Psychology, testou um programa intensivo de reabilitação cognitiva e sugeriu que ele pode melhorar o desempenho em atividades do dia a dia. Mas foram apenas 14 pessoas que completaram o estudo, e o desenho não permite conclusões definitivas: é um sinal promissor, não um tratamento estabelecido.
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A névoa mental é uma das queixas mais frequentes da covid longa e, até aqui, tem poucas intervenções testadas em ensaios randomizados. Este é um dos primeiros estudos desse tipo, e vale comentá-lo justamente para mostrar o que um piloto pequeno pode e o que não pode afirmar.
Também é um ângulo diferente do que já trouxemos sobre covid longa neste blog, que tratou de mecanismos no cérebro, como exames de imagem e anticorpos. Aqui a pergunta é outra: independentemente da causa, existe algo que ajude a pessoa a recuperar o funcionamento no dia a dia?
O artigo foi publicado em fevereiro de 2026 e a divulgação da UAB é de abril, então não se trata de uma novidade recente. A razão para voltar ao tema é a utilidade para quem convive com o problema e a necessidade de interpretar o resultado com cuidado.
A "névoa mental" (brain fog) descreve a sensação de pensamento confuso, lento e esquecido. Na covid longa, costuma vir acompanhada de fadiga e pode reduzir a capacidade de trabalhar e de realizar tarefas cotidianas, como cozinhar, organizar remédios, pagar contas e responder mensagens. Os testes de memória e atenção costumam mostrar alterações leves, mas o impacto na vida real pode ser grande.
Os autores do estudo afirmam que não havia, até então, intervenção para esse quadro com eficácia demonstrada em ensaio randomizado.
O cenário pede cautela. Em 2025, o ensaio RECOVER-NEURO, do consórcio RECOVER (NIH) e publicado na JAMA Neurology, testou programas de treino cognitivo e estimulação cerebral não invasiva em 328 adultos com comprometimento cognitivo associado à covid longa, em 22 centros dos Estados Unidos. As intervenções foram feitas em grande parte em casa, ao longo de 10 semanas, e nenhuma superou o seu grupo de comparação; todos os grupos, inclusive os controles, melhoraram um pouco.
Esse resultado não se aplica diretamente ao estudo da UAB, que testou outro programa, presencial e conduzido por terapeutas, mas lembra que achados promissores em estudos pequenos nem sempre se repetem em estudos maiores.
O programa testado, chamado Terapia Cognitiva por Indução ao Uso (CICT, na sigla em inglês), é uma adaptação de uma abordagem já usada na reabilitação motora após o AVC. Ele combina duas partes: um treino em computador para aumentar a velocidade de processamento das informações e um "pacote de transferência", com técnicas para levar o que foi treinado para a vida real, como acordos de metas, tarefas para casa e envolvimento da família. A lentidão do raciocínio é comum na covid longa e também após o AVC, e isso motivou a adaptação.
O estudo foi um ensaio clínico piloto randomizado, conduzido em um único centro. Foram inscritas 16 pessoas adultas, com pelo menos três meses desde a infecção, névoa mental persistente, comprometimento cognitivo leve em teste de triagem e dificuldade em atividades do dia a dia. Pessoas com demência, AVC, traumatismo craniano ou depressão grave foram excluídas.
Os participantes foram sorteados para dois grupos: CICT imediato ou tratamento padrão, que na maioria dos casos significava avaliação clínica para outras causas, sem tratamento específico para a cognição. Quem ficou no tratamento padrão pôde receber o CICT depois.
O CICT foi presencial, no laboratório da UAB: cerca de 36 horas de treino programadas ao longo de 2 a 7 semanas, ajustadas à energia e ao horário de cada pessoa. O desfecho principal foi o desempenho em cinco atividades escolhidas pelo próprio participante, avaliado por entrevista estruturada (um relato do paciente). Também foram medidos névoa mental, fadiga, humor, velocidade de processamento e situação de trabalho.
O estudo foi aberto: participantes e avaliadores sabiam quem recebia cada tratamento.

Dos 16 inscritos, 14 completaram o estudo (7 em cada grupo). Duas pessoas do grupo de tratamento padrão saíram antes da segunda avaliação e foram excluídas das análises, e outras três deixaram o estudo antes de começar o CICT. Nenhum participante do grupo CICT desistiu.
Entre os que completaram, os resultados sugerem:
Alguns resultados não confirmaram benefício. O teste cognitivo geral (MoCA) não mostrou diferença entre os grupos, e a redução de ansiedade não foi estatisticamente significativa. Para depressão e velocidade de processamento, o resultado dependeu do método estatístico usado, por isso não vamos tratá-los como melhoras comprovadas.
Quanto a conflitos de interesse, os autores desenvolveram as técnicas avaliadas. Uma das coautoras é consultora e integra o conselho científico da empresa que produz o software de treino de velocidade de processamento, embora esse software não tenha sido usado neste estudo. O estudo recebeu verbas da própria universidade e de agências de pesquisa dos Estados Unidos.
O CICT não é uma terapia aprovada ou disponível para uso rotineiro, e o estudo não demonstra que ela funcione. O que ele oferece é um sinal de que a reabilitação cognitiva estruturada, focada em tarefas reais da vida, merece ser testada em estudos maiores.
Alguns pontos práticos:
Há também orientações gerais de rotina que costumamos reforçar em nossos conteúdos: manter horários regulares, buscar luz natural durante o dia, se manter ativo dentro do que a condição permite e preservar o convívio social. Esses hábitos não foram testados neste estudo e não substituem avaliação médica; fazem parte de um cuidado mais amplo. A ideia de retomar aos poucos atividades que a pessoa deixou de fazer conversa com o espírito do programa, mas o estudo avaliou um programa estruturado e supervisionado, não conselhos gerais.
Segundo a UAB, em abril de 2026 um estudo maior estava em andamento e ainda recrutando participantes. Os autores sugerem que os próximos ensaios incluam um grupo comparador ativo, evitem o desenho com troca de tratamento, recrutem uma população mais diversa e avaliem quais partes do programa são realmente necessárias. Eles também consideram a possibilidade de oferecer o programa por telessaúde, o que reduziria a necessidade de deslocamento.
Enquanto isso, o programa não está disponível como tratamento de rotina, e o acesso no Brasil dependerá de estudos maiores e de decisões regulatórias e de serviços de saúde.
Um estudo piloto randomizado com 14 pessoas com névoa mental da covid longa sugeriu que um programa intensivo de reabilitação cognitiva (CICT) pode melhorar o desempenho em tarefas do dia a dia, reduzir a névoa mental e a fadiga e ajudar a voltar ao trabalho. Por ser pequeno, aberto, sem grupo comparador ativo e baseado em relatos dos participantes, o estudo não permite concluir que o tratamento funcione, apenas que merece ser testado em estudos maiores.
Para quem convive com névoa mental persistente, o caminho continua sendo investigar outras causas, buscar acompanhamento especializado e manter, no ritmo possível, uma rotina com atividade e convívio.
Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.
Dr Diego de Castro é Neurologista pela USP e se dedica integralmente ao universo do diagnóstico e assistência.
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