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Mielite Transversa

Dr Diego de Castro
29/06/2026
Dr Diego de Castro Neurologia
Autor: 
Dr. Diego de Castro dos Santos

CRM-SP 160074 / CRM-ES 11.111
Neurofisiologia clínica - RQE 74154
Neurologia - RQE 74153.
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Segundo o NINDS, mielite transversa (MT) é uma doença inflamatória rara que causa lesão na medula espinhal, gerando diferentes graus de fraqueza, alterações sensoriais e disfunção do sistema nervoso autônomo.

Embora algumas pessoas se recuperem completamente ou apenas com problemas residuais menores, o processo pode levar meses a anos. Não há cura para mielite transversa, mas existem tratamentos para prevenir ou minimizar déficits neurológicos permanentes.

Neste artigo, Dr Diego de Castro, Neurologista e Neurofisiologista pela USP, explica sobre a Mielite Transversa, suas causas, sintomas, formas de diagnóstico e tratamento.

Compreendendo a Mielite Transversa

As fibras nervosas da medula espinhal são protegidas por uma camada de tecido gorduroso chamado mielina. A bainha de mielina se encaixa ao redor dos nervos, da mesma forma que o isolamento que cobre um fio elétrico.

Quando a mielina é danificada, os nervos também podem ser feridos, dificultando o envio de sinais para outras partes do corpo. E quando a lesão acontece com os nervos de ambos os lados de uma região da medula espinhal, a condição é denominada mielite transversa.

Esta desordem pode afetar qualquer pessoa, mas, segundo a Mayo Clinic, já conseguimos identificar alguns padrões:

  • Gênero: As mulheres estão em maior risco
  • Idade: Na maioria das vezes afeta pessoas de 10 a 19 anos e 30 a 39 anos
  • Histórico familiar: A mielite transversa não parece afetar pessoas da mesma família ou estar ligada a um defeito genético.

Causas

As possíveis causas da mielite transversa podem ser bastante variadas. Em cerca de 50% dos casos, a mielite transversa segue uma infecção. Em alguns casos, o vírus pode desencadear uma reação autoimune, mesmo sem infectar diretamente a medula espinhal. As principais condições relacionadas ao quadro de mielite transversa são:

  • Infecções virais como gripe, tuberculose, HIV, herpes simplex e varicela zoster (o vírus causador da catapora).
  • Infecções bacterianas, incluindo infecções de ouvido médio e pneumonia bacteriana.
  • Alguns cânceres - na maioria das vezes câncer de pulmão, ovário, linfático ou de mama. Em casos raros, o câncer pode desencadear uma resposta autoimune, quando o sistema imunológico ataca os próprios tecidos do corpo.
  • Distúrbios do sistema imunológico, incluindo esclerose múltipla e neuromielite ou transtorno do espectro óptico (NMOSD - sigla em inglês).
  • Outras doenças inflamatórias que afetam a medula espinhal.

Quando uma causa não pode ser identificada, chamamos de mielite transversa idiopática.

Nos últimos anos, a ciência avançou significativamente na identificação de causas antes pouco compreendidas da mielite transversa. A Doença Associada ao Anticorpo Anti-MOG (MOGAD) é hoje reconhecida como uma entidade completamente distinta da neuromielite óptica e da esclerose múltipla, com características clínicas, prognóstico e resposta ao tratamento próprios.

Pacientes com MOGAD tendem a apresentar uma recuperação motora mais favorável e maior chance de resolução das lesões na ressonância magnética, o que torna o diagnóstico diferencial entre essas condições fundamental para definir o melhor caminho terapêutico. Além disso, casos raros de mielite transversa têm sido documentados em pacientes submetidos à imunoterapia oncológica com inibidores de checkpoint imunológico, medicamentos utilizados no tratamento de diferentes tipos de câncer.

Nesses casos, a resposta imunológica potencializada pelo tratamento pode, paradoxalmente, voltar-se contra o próprio sistema nervoso. Por isso, ao investigar a causa de uma mielite transversa, é indispensável que o neurologista tenha conhecimento de todo o histórico de saúde e de medicamentos do paciente.

Mielite transversa

Sintomas

Conforme dados da Cleveland Clinic, a mielite transversa pode ser aguda (desenvolvendo-se durante horas a alguns dias) ou subaguda (geralmente desenvolvendo-se ao longo de uma a quatro semanas).

O segmento da medula espinhal em que ocorre o dano determina quais partes do corpo são afetadas. Danos em um segmento afetam a função desse nível para baixo. O dano da mielina ocorre mais frequentemente nos nervos na parte superior das costas.

Quatro características clássicas da mielite transversa são:

  • Fraqueza das pernas e braços. Pessoas com mielite transversa podem ter fraqueza nas pernas que progride rapidamente. Se a mielite afeta a medula espinhal superior, os sintomas também são observados nos braços. Os indivíduos podem desenvolver paralisia parcial das pernas, que pode progredir para a paraplegia (paralisia completa das pernas), exigindo que a pessoa use uma cadeira de rodas.
  • Dor. Os sintomas iniciais geralmente incluem dor lombar ou sensação de dor ou queimação que irradiam pelas pernas ou braços ou ao redor do tronco.
  • Alterações sensoriais. A mielite transversa pode causar parestesias (sensações anormais como queimação, cócegas, picadas, dormência, frieza ou formigamento) nas pernas e perda sensorial. Sensações anormais no tronco e região genital são comuns.
  • Disfunção intestinal e bexiga. Os sintomas comuns incluem frequência aumentada, incontinência ou prisão de ventre.

Outros sintomas podem incluir:

  • Espasmos musculares
  • Sensação geral de desconforto
  • Sensibilidade ao toque, ao ponto de a pressão leve da ponta dos dedos causar dor
  • Dor de cabeça
  • Febre
  • Perda de apetite
  • Problemas respiratórios.

Disfunção sexual, depressão e ansiedade também podem acontecer, mais comumente devido a mudanças no estilo de vida, estresse e dor crônica.

Uma vez que os sintomas começam, podem piorar em poucas horas. Na maioria das vezes, eles atingem o pico em 10 dias. Embora a condição não seja crônica, ela pode voltar se você tiver um histórico de doença autoimune.

Déficits neurológicos comuns resultantes de mielite transversa incluem:

  • Incontinência
  • Dor crônica
  • Fraqueza severa
  • Espasticidade
  • Paralisia.

Em alguns casos, estes podem ser permanentes.

Diagnóstico

Segundo a Mayo Clinic, quando o exame físico levar à suspeita de mielite transversa, é importante realizar alguns exames, com os seguintes objetivos:

  • Confirmar a presença de inflamação anormal dentro da medula espinhal
  • Eliminar a possibilidade de que algo além da inflamação esteja afetando a medula espinhal, por exemplo, um tumor, hérnia de disco ou uma compressão causada por um abscesso
  • Identificar a causa da inflamação anormal.

Entre os exames realizados no processo diagnóstico, estão:

  • Ressonância magnética espinhal - quase sempre confirma a presença de uma lesão na medula espinhal
  • Ressonância magnética cerebral - pode fornecer pistas para outras causas, especialmente a esclerose múltipla. Em alguns casos, a tomografia computadorizada (TC) pode ser usada para detectar inflamação.
  • Exames de sangue - podem ser realizados para descartar vários transtornos, incluindo infecção pelo HIV e deficiência de vitamina B12. O sangue também é testado para a presença de autoanticorpos (proteínas produzidas por células do sistema imunológico) que podem indicar doenças autoimunes como causa da mielite transversa.
  • Punção lombar e a análise de fluidos espinhais - pode identificar maior quantidade de proteína do que o habitual em algumas pessoas com mielite transversa e um número aumentado de glóbulos brancos, o que indica a presença de inflamação. O fluido espinhal também pode ser testado para infecções virais ou certos cânceres.

É essencial descartar a compressão da medula espinhal (por tumor, hérnia de disco, hematoma ou abscesso) como causa da mielite transversa. Em alguns casos, quando a compressão for tratada, é possível reverter a lesão neurológica na medula espinhal.

Um avanço diagnóstico importante da última década é a pesquisa de anticorpos específicos no sangue, que permite identificar a causa autoimune da inflamação com muito mais precisão do que antes. Os dois principais biomarcadores investigados hoje são o anticorpo anti-AQP4 IgG — marcador da neuromielite óptica (NMOSD) — e o anticorpo anti-MOG IgG — marcador da doença MOGAD.

A presença ou ausência desses anticorpos não é apenas um dado diagnóstico: ela define diretamente a estratégia de tratamento, o risco de recidivas e o prognóstico do paciente a longo prazo. Em casos em que o exame de sangue não é conclusivo, mas há forte suspeita clínica, esses anticorpos também podem ser pesquisados no líquido cefalorraquidiano, coletado por meio da punção lombar. Por isso, quando indicado pelo neurologista, realizar essa investigação laboratorial é uma etapa essencial para que o tratamento seja o mais preciso e eficaz possível.

Tratamento

Conforme a National Organization for Rare Disorders, a mielite transversa é uma doença relativamente rara. Por isso, a maior parte do que sabemos sobre o tratamento para MT vem de estudos de caso ou estudos de grupos de pacientes tratados.

Na maioria dos casos, é necessária a internação para a fase aguda, devido à gravidade do transtorno. Neste momento, medicamentos corticosteroides administrados por via intravenosa é o tratamento de linha de frente, com o objetivo de reduzir o inchaço e inflamação, reduzir a atividade do sistema imunológico e acelerar a recuperação da doença.

Se esteroides não reduzirem a inflamação, o tratamento de plasmaférese pode ser recomendado. Também conhecido como terapia de troca de plasma, este método consiste em substituir o plasma do sangue, eliminando os componentes que podem estar ativando o sistema imunológico para atacar outros órgãos do corpo.

Outros tratamentos realizados durante a fase aguda incluem:

  • Medicação para dor. Dor crônica é uma complicação comum da mielite transversa. Os Medicamentos analgésicos comuns podem diminuir a dor muscular. Já a dor nervosa pode ser tratada com medicamentos antidepressivos ou anticonvulsivantes, pois eles atuam regulando os sinais nervosos no cérebro.
  • Medicação antiviral. Quando a mielite transversa é causada por uma infecção viral da medula espinhal, medicamentos antivirais são utilizados para eliminar a infecção.
  • Tratamento das complicações. Podem ser utilizadas diferentes formas de tratamento, conforme necessário, para tratar problemas como espasticidade muscular, disfunção urinária ou intestinal, depressão ou outras complicações.
  • Prevenção de Recorrência. Em casos de mielite transversa idiopática, é raro que os pacientes tenham uma recidiva. No entanto, quando é uma manifestação de outra desordem, como neuromielite óptica, esclerose múltipla, sarcoidose, lúpus, o tratamento contínuo com medicamentos que modulam ou suprimem o sistema imunológico pode ser necessário.

Para os pacientes em que a mielite transversa é manifestação da neuromielite óptica (NMOSD) com anticorpo anti-AQP4 positivo, condição com altíssimo risco de recidivas graves, a medicina conta hoje com opções terapêuticas de prevenção respaldadas por evidências científicas de alto nível. Atualmente, quatro medicamentos da classe dos anticorpos monoclonais demonstraram eficácia na redução de novos episódios:

  • Eculizumabe (que atua bloqueando o sistema complemento)
  • Inebilizumabe (anti-CD19)
  • Satralizumabe (anti-receptor de IL-6)
  • Rituximabe (anti-CD20).

Os três primeiros são aprovados pela FDA, a agência regulatória americana. Já para os pacientes com MOGAD, ainda não existem tratamentos com aprovação formal, e as estratégias preventivas, como imunoglobulina intravenosa, rituximabe e imunossupressores orais, são baseadas em dados observacionais e definidas de forma individualizada pelo neurologista.

Esse cenário reforça um ponto fundamental: o diagnóstico preciso da causa específica da mielite transversa é o que permite ao médico escolher o tratamento certo para cada paciente, protegendo-o de novos episódios que poderiam causar danos neurológicos adicionais e permanentes.

Cuidados a Longo Prazo

Muitos pacientes com mielite transversa necessitam de cuidados e processos de reabilitação para prevenir complicações e melhorar suas habilidades funcionais. Segundo o Hospital Johns Hopkins, é importante iniciar a terapia precocemente, para evitar problemas relacionados à inatividade e perda de amplitude de movimento.

Embora a reabilitação não possa reverter os danos físicos resultantes da mielite transversa, ela pode mesmo aquelas pessoas com paralisia grave a se tornarem mais independentes e alcançarem a melhor qualidade de vida possível.

Uma equipe multidisciplinar pode ajudar no tratamento dos deficits neurológicos duradouros ou permanentes:

  • A fisioterapia pode ajudar a reter a força e flexibilidade muscular, melhorar a coordenação, reduzir a espasticidade, melhorar o controle sobre a bexiga e a função intestinal e aumentar o movimento das articulações.
  • A terapia ocupacional ensina novas maneiras de manter ou reconstruir sua independência em tarefas como tomar banho, vestir-se, preparar refeições e limpar a casa.
  • A psicoterapia proporciona estratégias e ferramentas para lidar com o estresse e as emoções associadas à condição e desenvolver comportamentos que ajudem em sua qualidade de vida.

É difícil prever o curso da mielite transversa. Embora a maioria das pessoas tenha pelo menos recuperação parcial, pode levar um ano ou mais. A maior parte da recuperação ocorre nos primeiros três meses após o episódio e depende fortemente da causa.

Perguntas Frequentes

  • Por que a mielite transversa causa sintomas tão diferentes de pessoa para pessoa?
    • A localização e a extensão da inflamação na medula espinhal variam de caso para caso. Se a inflamação ocorre em uma região mais alta (cervical), ela afeta braços, pernas e até a respiração; se ocorre na região torácica, os membros inferiores e o tronco são mais comprometidos. Além disso, a causa da doença também influencia diretamente a intensidade e o padrão dos sintomas apresentados.
  • A mielite transversa tem cura? O que posso esperar ao longo do tempo?
    • Não existe cura estabelecida, mas isso não significa que não há recuperação. Muitos pacientes apresentam melhora significativa ao longo de meses a anos. O prognóstico depende da causa da doença, da gravidade da lesão inicial e de quão rapidamente o tratamento foi iniciado. O acompanhamento neurológico contínuo é fundamental para monitorar a evolução e ajustar o tratamento conforme necessário.
  • Por que o médico pediu exame de sangue para pesquisar anticorpos?
    • A pesquisa de anticorpos específicos é um avanço diagnóstico importante da última década. Identificar esses anticorpos no sangue permite ao neurologista entender a causa exata da inflamação, o que muda completamente a estratégia de tratamento e a forma de prevenção de novas crises. Não é apenas um exame de rotina: é uma informação que pode definir o caminho do tratamento a longo prazo.
  • Se os corticosteroides são o tratamento principal, por que em alguns casos eles não funcionam?
    • Os corticosteroides atuam reduzindo a inflamação de forma ampla, mas em alguns casos a resposta imunológica envolvida é tão intensa — ou mediada por mecanismos específicos, como anticorpos circulantes — que a medicação sozinha não é suficiente para contê-la. Nesses casos, a plasmaférese (troca de plasma) pode ser indicada como segunda linha de tratamento, pois ela atua removendo fisicamente do sangue os anticorpos e outras substâncias inflamatórias que estão atacando a medula espinhal.
  • Preciso me preocupar com novas crises?
    • Depende da causa. A forma idiopática ou pós-infecciosa raramente recorre. No entanto, quando a mielite transversa é uma manifestação de uma doença autoimune, o risco de recidiva é alto e cada novo episódio pode causar danos adicionais. Por isso, nesses casos, o tratamento preventivo de longo prazo com medicamentos imunomoduladores é fundamental e não deve ser interrompido sem orientação médica.

Em Resumo

A mielite transversa é uma doença inflamatória rara da medula espinhal que pode surgir de forma súbita e impactar profundamente a vida de quem a desenvolve, afetando a mobilidade, a sensibilidade, o controle da bexiga e do intestino, e até a saúde emocional. Suas causas são variadas — infecções virais ou bacterianas, doenças autoimunes como esclerose múltipla e neuromielite óptica (NMOSD), ou ainda a forma idiopática, quando nenhuma origem é identificada.

O diagnóstico exige atenção especializada e uma combinação de exames, como ressonância magnética, punção lombar e exames de sangue. O tratamento na fase aguda é feito, em geral, com corticosteroides intravenosos em altas doses, podendo incluir plasmaférese nos casos mais graves ou refratários. A reabilitação multidisciplinar, com fisioterapia, terapia ocupacional e suporte psicológico, é parte fundamental do cuidado a longo prazo e pode fazer uma diferença significativa na qualidade de vida do paciente.

Embora não exista cura para a mielite transversa, o prognóstico depende fortemente da causa identificada, da rapidez com que o tratamento é iniciado e do acompanhamento contínuo com uma equipe especializada. Muitos pacientes alcançam recuperação parcial ou até completa ao longo de meses ou anos, especialmente quando o cuidado começa cedo e é conduzido de forma personalizada.

Referências

Dr Diego de Castro Neurologista

Dr Diego de Castro cuida de pacientes com diversas doenças neurológicas e realiza o exame de eletroneuromiografia SP e eletroneuromiografia em Vitória ES em casos complexos e condições genéticas raras.

Com o propósito de oferecer um atendimento de excelência e confiança, o Dr Diego de Castro realiza uma avaliação neurológica minuciosa, capaz de auxiliar na definição diagnóstica de seus sintomas e atua juntamente à equipe multidisciplinar para fornecer um tratamento eficaz a seus pacientes.

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Neurologia - Dr Diego de Castro
Dr Diego de Castro dos Santos é Neurologista pela USP e responsável pelo Serviço de Especialidades Neurológicas – Eletroneuromiografia. Atua como neurologista em Vitória Espírito Santo ES e em São Paulo no tratamento de Dor de Cabeça, Depressão, Doença de Parkinson, Miastenia gravis e outras doenças. Também se dedica a reabilitação de pacientes com AVC, distonias e crianças com paralisia cerebral, por meio de aplicação de toxina botulínica (Botox) e neuromodulação.
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