

Se você pesquisou sobre fibromialgia, provavelmente encontrou referências aos famosos "18 pontos de Fibromialgia" - locais dolorosos específicos do corpo que o médico pressiona durante o exame, e onde a dor intensa sinalizaria o diagnóstico. Durante décadas, essa foi a imagem que definiu a fibromialgia na cabeça de pacientes e médicos.
Mas a medicina avançou: os 18 pontos deixaram de ser o único critério diagnóstico desde 2010. E entender por que essa mudança aconteceu ajuda a compreender muito mais sobre a fibromialgia.
Neste artigo, Dr Diego de Castro, Neurologista e Neurofisiologista pela USP, explica sobre o que mudou nos critérios diagnósticos, por que a medicina evoluiu além dos pontos dolorosos e o que isso significa para quem ainda está esperando uma resposta.
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Segundo a Mayo Clinic, a fibromialgia é uma síndrome de dor musculoesquelética crônica e generalizada, acompanhada de:
A medicina ainda não encontrou uma causa específica para a fibromialgia, mas ela parece estar relacionada a um aumento na sensibilização central da dor, além de um desequilíbrio nos neurotransmissores como a serotonina, que regulam o sono, o humor e a dor.
O conceito de sensibilização central é a chave para entender a doença. Na fibromialgia, o cérebro interpreta estímulos leves como alarme.Isso explica por que pacientes sentem dor em resposta a pressões, temperaturas ou estímulos que seriam completamente toleráveis para outras pessoas.
Essa dor é real, mesmo quando exames de sangue, raio-X e ressonância magnética não mostram nada alterado. Essa ausência de marcadores objetivos é o que torna o diagnóstico tão desafiador.
Em 1990, o American College of Rheumatology (ACR) publicou os primeiros critérios oficiais para o diagnóstico de fibromialgia. O objetivo era estabelecer um padrão que permitisse comparar estudos clínicos ao redor do mundo e separar a fibromialgia de outras condições com dor generalizada.
Os critérios de 1990 tinham dois requisitos:
Conforme informações da American Fibromyalgia Syndrome Association, esses 18 pontos ficaram famosos porque eram concretos, fáceis de comunicar e davam ao diagnóstico uma aparência de objetividade. Os critérios de 1990 foram o padrão global durante 20 anos.
Ao longo de anos de uso clínico real, foram identificados alguns problemas:
Em 2010, o ACR publicou novos critérios diagnósticos que representaram uma mudança de paradigma. Em vez de exigir um exame físico específico, os novos critérios se baseiam em dois instrumentos que o próprio paciente pode responder:
O diagnóstico é confirmado quando o paciente tem IDG ≥ 7 e EGS ≥ 5, ou alternativamente IDG entre 3 e 6 com EGS ≥ 9 — com sintomas presentes em nível similar por pelo menos três meses, e sem outra doença que explique melhor o quadro.
Em 2016, esses critérios foram revisados mais uma vez para facilitar ainda mais o uso em diferentes contextos clínicos, sendo o que a maioria dos especialistas utiliza atualmente.
A mudança de 1990 para 2010/2016 foi uma mudança de filosofia sobre o que a fibromialgia é.
Os critérios antigos pressupunham que a doença poderia ser identificada por um achado físico objetivo e localizado. Os critérios modernos reconhecem que a fibromialgia é uma síndrome de sensibilização central - um problema no processamento da dor pelo sistema nervoso - e que seus efeitos se manifestam de forma ampla e variável em cada paciente.
Por isso, os novos critérios incluem sintomas que os pacientes reconhecem como os mais impactantes no dia a dia:

Artigo publicado na StatPearls explica que o diagnóstico de fibromialgia hoje envolve uma avaliação clínica cuidadosa que inclui:
A presença de outra doença, como artrite reumatoide, não exclui o diagnóstico de fibromialgia. É comum que doenças inflamatórias articulares atuem como um "gatilho" periférico para a sensibilização central da fibromialgia.
O diagnóstico de fibromialgia, quando estabelecido corretamente, não é o fim de uma busca, é o começo de um tratamento que pode transformar a qualidade de vida. A dor é real. Mas, atualmente, o diagnóstico tem critérios claros. E o tratamento tem mais opções do que muitos pacientes imaginam.
Dr Diego de Castro é Neurologista e Neurofisiologista pela USP especialista em eletroneuromiografia e doenças neuromusculares.
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