

Tropeçar com mais frequência. Os sapatos desgastam de um jeito estranho, sempre no mesmo lado. Os pés parecem pesados. Às vezes há dormência ou formigamento nas extremidades. Se esse quadro de fraqueza muscular progressiva nas pernas soa familiar, há uma condição neurológica hereditária que merece ser investigada: a doença de Charcot-Marie-Tooth (CMT).
Essa condição frequentemente passa anos sem diagnóstico e a busca por ortopedistas ou mesmo fisioterapeutas, nunca trazem explicações completas. Neste artigo, Dr Diego de Castro explica sobre esta que é a neuropatia periférica hereditária mais comum do mundo.
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Artigo publicado na StatPearls aponta muitas causas possíveis para o sintoma de fraqueza muscular progressiva nas pernas. Algumas são adquiridas:
Outras são genéticas, presentes desde o nascimento e que se manifestam gradualmente ao longo da vida.A CMT pertence a esse segundo grupo.
O que torna a fraqueza muscular progressiva nas pernas causada pela CMT diferente de outras condições é um conjunto de características que, juntas, formam um padrão reconhecível:
Segundo a Mayo Clinic, a doença muitas vezes é diagnosticada erroneamente ou de maneira tardia, seja pela falta de conhecimento ou pela sobreposição de sintomas com outras doenças neurológicas.
Na prática clínica, os pacientes com CMT percorrem um caminho longo antes de chegarem ao diagnóstico correto. Ortopedistas tratam as deformidades nos pés. Fisioterapeutas trabalham a fraqueza. Clínicos gerais atribuem os sintomas ao sedentarismo ou ao envelhecimento precoce.
Casos documentados na literatura descrevem pacientes que ficaram mais de 20 anos com sintomas progressivos antes que a hipótese de CMT seja levantada. Há razões para esse atraso:
O NHS explica que a CMT afeta os nervos periféricos, responsáveis pela comunicação entre o sistema nervoso central (cérebro e a medula espinhal) e os músculos e a pele das extremidades.
Os nervos têm uma bainha de mielina, que funciona como isolamento ao redor do nervo, protegendo-o e acelerando a transmissão do impulso. A CMT pode afetar predominantemente a mielina (formas desmielinizantes, como a CMT1) ou o próprio nervo (formas axonais, como a CMT2).
Os nervos que chegam até os pés e as partes distais das pernas são os mais longos do corpo. E, por isso, são os primeiros e os mais intensamente afetados: quanto mais extenso, mais vulnerável a falhas ao longo do percurso.
O resultado é uma fraqueza que começa nos pés - dificuldade para levantar o pé ao caminhar, o chamado pé caído - e que sobe gradualmente com o tempo. A perda de sensibilidade segue o mesmo padrão: primeiro os pés, depois as pernas, eventualmente as mãos.
Um sinal físico que os neurologistas reconhecem imediatamente é a panturrilha ficar progressivamente mais fina pela perda de massa muscular, enquanto a coxa mantém volume por mais tempo.
Conforme informação do NINDS, a suspeita de CMT deve ser levantada quando há combinação de:
É importante ressaltar: a CMT costuma manifestar-se na adolescência ou início da vida adulta, e suas manifestações podem ser leves, moderadas ou graves. Isso significa que um adolescente de 15 anos com queixas sutis e um adulto de 40 anos com limitações funcionais significativas podem ter a mesma doença em estágios diferentes.

O caminho diagnóstico da CMT combina três etapas complementares:
A CMT não tem cura até o momento, pois não existe tratamento para corrigir a alteração genética. Mas isso não significa que não há o que fazer. Muito pelo contrário.
A maioria dos pacientes tem evolução lenta, e muitos continuam andando por grande parte da vida. Assim, precisamos seguir monitorando força, marcha, quedas, deformidades, dor e função das mãos.
Artigo publicado no Journal of Multidisciplinary Healthcare orienta que o manejo envolve uma equipe multidisciplinar:
Uma pergunta legítima que pacientes fazem ao ouvir que não existe cura é: "Para que serve saber?" A resposta tem múltiplas camadas:
Além disso, o cenário terapêutico está mudando. Pesquisas com terapia gênica e alguns ensaios clínicos já avançaram para fases iniciais em humanos. Pacientes com diagnóstico confirmado poderão se beneficiar dessas terapias quando chegarem à prática clínica.
Se você ou alguém da sua família tem fraqueza muscular progressiva nas pernas com início na juventude, especialmente com histórico familiar de sintomas parecidos, a conversa com um neurologista especializado em neuropatias é o primeiro passo.
Dr Diego de Castro é Neurologista e Neurofisiologista pela USP e atua no diagnóstico de neuropatias periféricas e outras condições que afetam o sistema nervoso.
Além de cuidar dessas pessoas, é referência na realização do exame de Eletroneuromiografia.
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