

Por que algumas pessoas com covid longa perdem a motivação, ficam mais lentas e têm dificuldade de memória meses após uma infecção que parecia leve? Um estudo canadense publicado na revista eBioMedicine usou exames de imagem do cérebro para investigar essa pergunta e encontrou, em pacientes com covid longa, níveis mais baixos de um marcador ligado aos terminais nervosos que liberam dopamina.
O achado é uma pista biológica relevante, mas vem de um estudo pequeno e observacional, que ainda não prova causa e efeito.
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O estudo foi publicado em julho, mas voltou a circular nas últimas semanas, muitas vezes com títulos que falam em "dano comprovado" ou em "explicação definitiva" para a névoa mental da covid longa. Os dados não sustentam essas afirmações, e quem convive com os sintomas merece uma leitura mais cuidadosa.
Há também um motivo específico para os leitores deste blog. O marcador usado na pesquisa é do mesmo tipo empregado em estudos de imagem sobre a doença de Parkinson. Por isso, é importante esclarecer desde já: o estudo não mostra que a covid longa cause Parkinson, nem que os pacientes avaliados tenham uma doença neurodegenerativa. Ele descreve uma alteração medida por imagem, em um grupo pequeno, em um único momento.
Por fim, o trabalho ajuda a reforçar uma mensagem importante: os sintomas cognitivos e de falta de energia da covid longa podem ter correlatos biológicos mensuráveis, e não devem ser tratados como algo "apenas psicológico".
A covid longa é o conjunto de sintomas que persistem por meses após a infecção pelo SARS-CoV-2. Entre as queixas mais frequentes estão cansaço, dificuldade de concentração, problemas de memória e a sensação conhecida como "névoa mental". Esses sintomas podem afetar trabalho, estudo e vida social, mas costumam ser difíceis de medir em exames de rotina.
A dopamina é um neurotransmissor envolvido na motivação, no controle dos movimentos e em funções como aprendizado e memória. Uma das principais regiões onde ela atua é o estriado, um conjunto de estruturas localizadas na parte profunda do cérebro.
Os pesquisadores tinham motivos para olhar para essa região. Os neurônios que liberam dopamina são sensíveis à inflamação e têm grande quantidade de ACE2, o receptor usado pelo coronavírus para entrar nas células. Além disso, trabalhos anteriores do mesmo grupo já haviam encontrado sinais de inflamação cerebral em pessoas com covid longa, inclusive nessas regiões.
Trata-se de um estudo do tipo caso-controle, que compara dois grupos em um mesmo momento.
Participaram 24 adultos com covid longa e 24 pessoas saudáveis de idade semelhante. Os participantes eram relativamente jovens, com idade média em torno de 32 anos, e tinham tido covid leve ou moderada. Todos apresentavam sintomas neuropsiquiátricos, como falta de motivação, lentidão ou alterações cognitivas, que surgiram até três meses após a infecção e persistiram por pelo menos três meses.
Os participantes fizeram um exame de tomografia por emissão de pósitrons (PET), que usa uma substância levemente radioativa para "iluminar" moléculas específicas no cérebro. Nesse caso, a substância se liga ao VMAT2, uma proteína presente nos terminais dos neurônios que liberam dopamina. Quanto menor o sinal, menor a densidade estimada desses terminais nervosos.
Vale um cuidado: o exame não mede diretamente a quantidade de dopamina, nem conta neurônios. Ele estima a densidade de uma proteína associada à integridade desses terminais.
Foram avaliadas três regiões do estriado: o estriado ventral, o putame dorsal e o núcleo caudado. Os pesquisadores também aplicaram testes e questionários para medir motivação, velocidade de movimentos e memória, e verificaram se esses resultados se relacionavam com os achados de imagem.
Redução do marcador nas três regiões avaliadas. Pessoas com covid longa apresentaram níveis mais baixos do marcador dopaminérgico no estriado ventral, no putame dorsal e no núcleo caudado, em comparação com as pessoas saudáveis. Segundo os autores, esse padrão sugere uma menor densidade de terminais nervosos dopaminérgicos.
Cada região se associou a um tipo de sintoma. Entre os pacientes:
Essas associações não têm todas o mesmo peso. As relações com motivação e lentidão de movimentos estavam entre os objetivos planejados do estudo. Já a relação com a memória foi uma análise exploratória, ou seja, levantada durante a pesquisa e que precisa ser confirmada em estudos futuros.

Para quem convive com covid longa, o estudo traz uma mensagem importante de validação: sintomas como falta de motivação, lentidão e dificuldade de memória podem estar associados a alterações mensuráveis no cérebro. Isso reforça que essas queixas devem ser levadas a sério na avaliação médica.
Ao mesmo tempo, há limites claros:
Também é importante não interpretar o estudo como indicação para usar, por conta própria, medicamentos que atuam sobre a dopamina. Essas medicações têm efeitos colaterais e interações relevantes, e ainda não foram testadas de forma adequada para a covid longa.
Quem tem sintomas persistentes após a covid deve procurar avaliação médica. Um neurologista pode investigar outras causas, orientar estratégias de reabilitação e acompanhar a evolução dos sintomas.
O grupo de pesquisa planeja um ensaio clínico para testar um medicamento já existente, que atua sobre a função dopaminérgica e sobre alguns tipos de inflamação cerebral, com foco em memória, motivação e fadiga na covid longa. Até o momento desta publicação, não encontramos confirmação de que o estudo já tenha começado.
Um ensaio clínico randomizado é o tipo de estudo capaz de responder se atuar sobre esse mecanismo realmente melhora os sintomas, algo que um estudo de imagem não consegue fazer sozinho.
Também serão necessários estudos maiores, que acompanhem os pacientes ao longo do tempo e incluam pessoas com diferentes perfis e níveis de gravidade da covid longa.
Um estudo com PET encontrou, em 24 pessoas com covid longa, níveis mais baixos de um marcador ligado aos terminais nervosos dopaminérgicos no estriado, em comparação com pessoas saudáveis. As reduções em diferentes regiões se associaram a falta de motivação, lentidão de movimentos e, de forma ainda exploratória, dificuldades de memória.
O achado sugere uma pista biológica para parte dos sintomas da covid longa, mas não prova causa e efeito, não se aplica automaticamente a todos os pacientes e não indica relação com a doença de Parkinson. A confirmação dependerá de estudos maiores e de ensaios clínicos que testem se intervir nesse mecanismo realmente ajuda os pacientes.
Nota de Transparência: Comprometidos com a vanguarda da medicina, utilizamos ferramentas de IA para monitorar as notícias mais recentes da neurologia mundial. Este conteúdo foi estruturado por IA e revisado detalhadamente pelo Dr. Diego de Castro para assegurar a autoridade médica e empatia com o paciente.
Dr Diego de Castro é Neurologista pela USP e se dedica integralmente ao universo do diagnóstico e assistência.
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